Friday, November 30, 2007

"Voglio morire, morire"

As pessoas não limpam a casa
do mesmo jeito.
Seus gestos têm outros meneios,
mais gentis.
O passo, subindo a ladeira,
mais pesado,
mais marcado.
O vento não sopra igual,
mas com melancólica realidade.
O sol, bem sobre as pestanas,
forte, sobre a testa,
combina com uma santificação
de coração sangrando.
Neste dia antigo, de tudo antigo,
de luz, principalmente,
docilmente primaveril,
e tantas inúmeras micro-paisagens
(fosse eu um pintor-poeta-cronista mais ágil!),
todo canto é maternal.
Para o sofredor, todo canto é
maternal.
Mas, esclareça-se,
esse sofrimento não é a dor da doença
(embora se misture). Não.
É a dor que todos dizem deixarmos
pra lá. É aquela, do apartamento.
Dos laços desfeitos. Do ir longe.
Do arrependimento do não-feito.
É dor do tempo.
A janela aberta, plena de luz forte,
e o sol deve estar todo mole ao seu redor.
Poeiras e insetinhos passeiam
caoticamente.
Todo um dia de antigüidade, dolorosíssima
xícara de café com leite e açúcar, quentinhos,
na casa da avó. Assim, minha filha, também eu;
também nessa luz, também nessa sombra,
tão assombreadora e abarcante, também vi
estas plantinhas nas calçadas não-calçadas,
calçadas de terra, barranquinhos, e tufos,
às vezes, de florzinhas amarelas - todas as cores,
de flores anônimas. Vi, também, estas calçadas,
branca a guia, cegante ao sol, e estas velhas,
de sombrinhas. Também vi esse esplêndido
tarde.
Também vi esses passarinhos na quietude, pipiando.
Algo se quebrou,
e este dia voltou.

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