Wednesday, March 04, 2009

Poesia - discurso de Estocolmo - Saint-John Perse (1960)

"Aceitei para a poesia a homenagem que aqui lhe é prestada, e que me apresso a lhe restituir.

Poucas vezes a poesia ocupa um lugar de honra. É que parece vai aumentando a dissociação entre a obra poética e a atividade de uma sociedade sujeita às servidões materiais. Distância aceita pelo poeta, mas não procurada por ele, e que seria a mesma para o sábio, não fossem as aplicações práticas da ciência.

Mas, do sábio, como do poeta, é o pensamento desinteressado que aqui se pretende honrar. Que, ao menos, aqui já não sejam considerados como irmãos inimigos. Porquanto é a mesma a interrogação que eles fazem sobre um mesmo abismo, e só os modos de investigação é que diferem.

Quando se mede o drama da ciência moderna, que até no absoluto matemático descobre os seus limites racionais; quando se vê, na física, duas grandes doutrinas-mestras formularem uma um princípio geral de relatividade e outra um princípio quântico de incerteza e de indeterminismo que limitaria para sempre a própria exatidão das medidas físicas; quando se ouviu o maior inovador científico deste século, iniciador da cosmologia moderna e responsável pela mais vasta síntese intelectual em termos de equações, invocar a intuição em socorro da razão e proclamar que "a imaginação é o verdadeiro terreno de germinação científica", chegando mesmo até a reclamar para o sábio o benefício de uma verdadeira "visão artística" -, não se está no direito de considerar o instrumento poético tão legítimo como o instrumento lógico?

Na realidade, toda criação do espírito é principalmente "poética" no sentido próprio do termo; e, na equivalência das formas sensíveis e espirituais, uma mesma função se exerce, inicialmente, para o empreendimento do sábio e para o do poeta. Entre o pensamento discursivo e a elipse poética, quem vai mais longe e de mais longe? E, dessa noite original em que tateiam dois cegos de nascença, um aparelhado com a ferramenta científica e o outro assistido pelas únicas fulgurações da intuição, quem é que mais cedo e mais cheio de breve fosforescência se exalça? Não importa a resposta. O mistério é comum. E a grande aventura do espírito poético não cede em coisa alguma às aberturas dramáticas da ciência moderna. Podem alguns astrônomos ter-se perturbado ao extremo com uma teoria do universo em expansão; não há menos expansão no infinito moral do homem - esse universo. Por mais que a ciência recue as suas fronteiras, e em todo o arco estendido dessas fronteiras, ainda se ouvirá correr a matilha caçadora do poeta. Porque, se a poesia não é, como se disse, o "real absoluto", é certamente a mais próxima cobiça e a mais próxima apreensão desse real, nesse limite extremo de cumplicidade em que, no poema, o real parece informar-se a si mesmo.

Pelo pensamento analógico e simbólico, pela iluminação remota da imagem mediadora e de associações estranhas, enfim, pela graça de uma linguagem em que se transmite o próprio movimento do Ser, o poeta investe-se de uma super-realidade que não pode ser a da ciência. Haverá no homem dialética mais empolgante e que mais o comprometa? Quando os próprios filósofos desertam o limiar da metafísica, ao poeta sucede reintroduzir aí o metafísico; e então a poesia, e não a filosofia, é que se revela a verdadeira "filha da interrogação", consoante a expressão do filósofo antigo a quem ela foi mais suspeita.

Porém, mais do que modo de conhecimento, a poesia é primeiramente modo de vida - e de vida integral. O poeta existia no homem das cavernas, existirá no homem das idades atômicas, porque é parte irredutível do homem. Da exigência poética, exigência espiritual, nasceram as próprias religiões, e pela graça poética a centelha do divino vive para sempre no sílex humano. Quando as mitologias se esboroam, é na poesia que acha refúgio o divino; talvez mesmo o seu "relais". E até na ordem social e no imediato humano, quando as Portadoras de pão do antigo cortejo cedem o passo às Portadoras de archotes, é ainda na imaginação poética que se acende a alta paixão dos povos em busca da claridade.

Ufania do homem em marcha por sob a sua carga de eternidade! Ufania do homem em marcha debaixo do seu fardo de humanidade, quando para ele se abre um humanismo novo, de universalidade real e de integralidade psíquica... Fiel ao seu ofício, que consiste no aprofundamento do mistério do homem, a poesia moderna arrosta uma empresa cujo prosseguimento interessa a plena integração do homem. Não há nada de pítico em tal poesia. nada, tampouco, de puramente estético. Ela não é arte de embalsamador ou de decorador. Não cria pérolas cultivadas, nem trafica simulacros ou emblemas, e não poderia contentar-se com nenhuma festa musical. A si alia, em seus caminhos, a beleza, aliança suprema, porém não faz dela seu fim nem seu pábulo único. Recusando-se a dissociar da vida a arte, e do amor o conhecimento, ela é ação, é paixão, é poder e novação sempre, que desloca os limites. O amor é seu lar, a insubmissão sua lei, e seu lugar está em toda parte, na antecipação. Ela jamais se quer ausência ou recusa.

Nada espera, no entanto, das vantagens do século. Presa ao seu próprio destino e livre de toda ideologia, ela se conhece igual à própria vida, que por si mesma nada tem a justificar. E é com um mesmo amplexo, como com uma só grande estrofe viva, que ela abraça, no presente, todo o passado e todo o futuro, o humano, como o sobre-humano, e todo o espaço planetário com o espaço universal. A obscuridade que lhe exprobam não se prende à sua natureza própria, que é esclarecer, e sim à própria noite que ela explora e que a ela cabe explorar: a da própria alma e do mistério em que o ser-humano imerge. A sua expressão sempre vedou a si mesma o obscuro, e essa expressão não é menos exigente do que a da ciência.

Assim, por sua adesão total ao que é, o poeta mantém para nós ligação com a permanência e com a unidade do Ser. E sua lição é de otimismo. Uma mesma lei de harmonia rege para ele o inteiro mundo das coisas. Nada pode acontecer que, por natureza, exceda a medida do homem. Os piores cataclismos da história não passam de ritmos sazonais numa mais vasto ciclo de encadeamentos e de renovações. E as Fúrias que atravessam o cenário, tocha erguida, iluminam apenas um instante do longuíssimo tema em curso. As civilizações maturescentes não morrem de modo algum com os estertores de um outono; mudam apenas. Só a inércia é ameaçadora. Poeta é aquele que rompe para nós a acostumança.

E assim é que, mau grado seu, o poeta se acha também ligado ao acontecimento histórico. E, do drama de seu tempo, nada lhe é estranho. Que a todos diga ele claramente o gosto de viver esse tempo forte! Porquanto grande e nova é a hora em que se nasce de novo! E a quem, então, haveríamos de ceder a honra de nosso tempo?...

"Não temas, diz a História, levantando um dia a sua máscara de violência; e, com a mão levantada, faz aquele gesto conciliatório da Divindade asiática no mais forte da sua dança destruidora, "não temas nem duvides - porque a dúvida é estéril e o temor é servil. Antes, escuta essa batida ritmada que minha mão erguida imprime, inovadora, na grande frase humana, em criação permanente. Não é verdade que a vida possa renegar-se a si mesma. Não há nada vivo que do nada proceda, nem que pelo nada se apaixone. Porém, tampouco, nada conserva forma ou medida sob o incessante afluxo do Ser. A tragédia não está na própria metamorfose. O verdadeiro drama do século está na distância, que se deixa crescer, entre o homem temporal e o homem intemporal. Será que o homem aclarado sobre uma vertente vai obscurecer-se sobre a outra? E o seu amadurecimento forçado, numa comunidade sem comunhão, não passará de falsa maturidade?... "

Ao poeta indiviso cabe atestar entre nós a dupla vocação do homem. E é isto alçar perante o espírito um espelho mais sensível às suas potencialidades espirituais. É evocar no próprio século uma condição humana mais digna do homem original. É, enfim, associar mais ousadamente a alma coletiva à circulação da energia espiritual no mundo... Face à energia nuclear, a lâmpada de argila do poeta bastará a seu propósito? Basta, se de argila se lembrar o homem.

E é suficiente, para o poeta, ser a má consciência do seu tempo.


(In: PERSE, Saint-John. "Poemas". Tradução de Bruno Palma. Rio de Janeiro : Grifo, 1971)

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