To sit on rocks, to muse o´er flood and fell,
To slowly trace the forest´s shady scene,
Where things that own not man´s dominion dwell,
And mortal foot hath ne´er or rarely been;
To climb the trackless mountain all unseen,
With the wild flock that never needs a fold;
Alone o´er steeps and foaming falls to lean;
This is not solitude, ´tis but to hold,
Converse with Nature´s charms, and view her stores unrolled.
But midst the crowd, the hurry, the shock of men,
To hear, to see, to feel and to possess,
And roam alone, the world´s tired denizen,
With none who bless us, none whom we can bless;
Minions of splendour shrinking from distress!
None that, with kindred consciousness endued,
If we were not, would seem to smile the less
Of all the flattered, followed, sought and sued;
This is to be alone; this, this is solitude!
Sentar às rochas, e pensar na seca, na enchente;
Caminhar lentamente no cenário da floresta enevoada,
onde moram coisas que não possuíram bens humanos;
onde pés mortais jamais, ou raramente, andaram.
Escalar, com o rebanho selvagem, a invisível
montanha sem trilhas, aquele, que nunca precisou
de currais, Estar sozinho
entre alcantiladas e espumantes cachoeiras a jorrar:
não é solidão, isso tudo, mas celebração,
um conversar com os encantos da Natureza
e ver suas reservas escondidas...
Mas, em meio a um milhão, no tumulto e no encontro dos homens,
Ouvindo, vendo, sentindo e possuindo,
vagando sozinhos, cidadãos estrangeiros e cansados do mundo,
sem ninguém que os abençoe, ninguém a se abençoar;
Servos do esplendor a se encolherem de aflição!
Tudo o que é lisonjeado, tudo o que é procurado, seguido,
descoberto, ao menos pareceria nos sorrir.!, se não tivéramos
consciência afinada e de privilégio: assim, isso, isso, verdadeiramente,
é a Solidão...
Sunday, October 04, 2009
Paul Valéry - pérolas
"Assim, rever e prever, recuperar no passado e pressentir parecem-se muito em nós mesmos, que só podemos oscilar entre imagens e para quem o eterno presente é como o batimento entre hipóteses simétricas, uma que supõe o passado, outra que propõe o futuro." ("Discurso sobre a História")
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"Poesia e pensamento abstrato"
"Acrescentarei mesmo esta opinião paradoxal: que se o lógico nunca pudesse ser algo além de lógico, ele não seria e não poderia ser um lógico; e que se o outro nunca fosse algo além de poeta, sem a menor esperança de abstrair e de raciocinar, ele não deixaria atrás de si qualquer traço poético. Penso sinceramente que se todos os homens não pudessem viver uma quantidade de outras vidas além da sua, eles não poderiam viver a sua."
"Reconhece-se o poeta - ou, pelo menos, cada um reconhece o seu - pelo simples fato de que ele transforma o leitor em 'inspirado'. A inspiração é, positivamente falando, uma atribuição gratuita feita pelo leitor a seu poeta: o leitor nos oferece os méritos transcendentes das forças e das graças que se desenvolvem nele. Ele procura e encontra em nós a causa admirável de sua admiração."
Na prosa, o som leva ao sentido.
Na poesia, há uma oscilação entre som e sentido, um vai-e-vem
Pode-se falar num movimento direto, e em outro, pendular
"Na verdade, um poema é uma espécie de máquina de produzir o estado poético através das palavras. O efeito dessa máquina é incerto pois nada é garantido em matéria de ação sobre nossos espíritos. Mas qualquer que seja o resultado e sua incerteza, a construção da máquina exige a solução de muitos problemas. Se o termo 'máquina' os choca, se minha comparação mecânica parece grosseira, observem que a composição de um poema pode durar muitos anos, ao passo que o leitor a recebe em alguns minutos. E recebe o choque de criações, de vislumbres, acumulados em meses de procura, espera, paciência e impaciência. Atribuirá, enfim, à inspiração muito mais do que ela pode dar."
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VALÉRY, Paul. “Discurso em honra de Goethe”. In : _____. Variedades. João Alexandre Barbosa (org.), Maiza Martins de Siqueira (trad.). SP : Iluminuras, 1991.
O sabor dos frutos de uma árvore não depende do aspecto da paisagem que a cerca, mas da riqueza invisível do terreno. (p. 35)
O orgulho de ser um sucesso tão brilhante, de ser um mestre em todas as coisas maravilhosas, o orgulho crescente se aperfeiçoa e eleva-se a este grau metafísico que o iguala a uma modéstia infinita. Não há o menor orgulho em um cedro quando se reconhece como a maior das árvores; (p. 39)
o mundo interior está sempre ameaçado por uma confusão de sensações obscuras, de lembranças, de tensões, de palavras virtuais onde o que queremos observar e apreender altera, corrompe de alguma forma a própria observação. Quase não podemos conceber e esboçar o que significa pensar o pensamento e, a partir desse segundo grau, desde que tentemos elevar nossa consciência a essa segunda potência, imediatamente tudo se perturba... (p. 41)
Mas o que há de mais europeu do que ser seduzido pelo Oriente? (p. 47)
Ele adotou o sistema profundo das transformações insensíveis. Está convencido e como que apaixonado pela lentidão maternal da natureza. Viverá muito tempo. Vida longa, vida plena, elevada, voluptuosa. Nem os homens, nem os deuses foram os cruéis com ele. Nenhum mortal conseguiu reunir, com tanta felicidade, as volúpias que criam às volúpias que ultrapassam e consomem soube dar aos detalhes de sua existência, a seus divertimentos e até aos seus menores aborrecimentos um interesse universal. É um grande segredo saber transformar tudo em néctar para os espíritos. (p. 47-8)
_____________________
(lembrança)
"Certa manhã, no dia seguinte a uma pesca muito abundante, na qual muitos atuns foram capturados, eu estava indo à praia para tomar um banho de mar. Primeiro fui a um pequeno molhe para desfrutar aquela luz admirável. De repente, baixando o olhar, percebi a alguns passos de mim, sob a água maravilhosamente lisa e transparente, um horrível e esplêndido caos que me fez estremecer. Coisas, de uma vermelhidão repulsiva, massas de um rosa delicado ou de cor púrpura profunda e sinistra... Jaziam lá. Reconheci horrorizado o medonho amontoado de vísceras estranhas de todo o bando de Netuno que os pescadores haviam jogado no mar. Eu não podia fugir nem suportar o que via, pois a repugnância causada por essa carnificina rivalizava em mim com a sensação de beleza real e singular dessa desordem de coisas orgânicas, desses ignóbeis troféus de glândulas, de onde escapavam ainda fumaças sanguinolentas e bolsas pálidas e trêmulas retidas por não sei que fios sob a camada de água tão clara, enquanto a onda, infinitamente lenta, embalava, na espessura límpida, um estremecimento dourado imperceptível sob toda essa carnificina.
Os olhos gostavam daquilo que a alma abominava. Dividido entre a repugnância e o interesse, entre a fuga e a análise, eu me esforçava em sonhar com o que um artista do Extremo Oriente, um homem com os talentos e a curiosidade de um Hokusaï, por exemplo, poderia fazer desse espetáculo.
Que estampa, que motivos de coral ele poderia conceber! Depois meu pensamento se transportou para o que há de brutal e de cruel na poesia dos antigos. Os gregos não repugnavam ao evocar as cenas mais atrozes... Os heróis trabalhavam como açougueiros. A mitologia, a poesia épica, a tragédia estão cheias de sangue. Mas a arte é comparável a essa camada límpida e cristalina, através da qual eu via essas coisas atrozes: ela nos lança olhares que podem considerar tudo."
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"Poesia e pensamento abstrato"
"Acrescentarei mesmo esta opinião paradoxal: que se o lógico nunca pudesse ser algo além de lógico, ele não seria e não poderia ser um lógico; e que se o outro nunca fosse algo além de poeta, sem a menor esperança de abstrair e de raciocinar, ele não deixaria atrás de si qualquer traço poético. Penso sinceramente que se todos os homens não pudessem viver uma quantidade de outras vidas além da sua, eles não poderiam viver a sua."
"Reconhece-se o poeta - ou, pelo menos, cada um reconhece o seu - pelo simples fato de que ele transforma o leitor em 'inspirado'. A inspiração é, positivamente falando, uma atribuição gratuita feita pelo leitor a seu poeta: o leitor nos oferece os méritos transcendentes das forças e das graças que se desenvolvem nele. Ele procura e encontra em nós a causa admirável de sua admiração."
Na prosa, o som leva ao sentido.
Na poesia, há uma oscilação entre som e sentido, um vai-e-vem
Pode-se falar num movimento direto, e em outro, pendular
"Na verdade, um poema é uma espécie de máquina de produzir o estado poético através das palavras. O efeito dessa máquina é incerto pois nada é garantido em matéria de ação sobre nossos espíritos. Mas qualquer que seja o resultado e sua incerteza, a construção da máquina exige a solução de muitos problemas. Se o termo 'máquina' os choca, se minha comparação mecânica parece grosseira, observem que a composição de um poema pode durar muitos anos, ao passo que o leitor a recebe em alguns minutos. E recebe o choque de criações, de vislumbres, acumulados em meses de procura, espera, paciência e impaciência. Atribuirá, enfim, à inspiração muito mais do que ela pode dar."
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VALÉRY, Paul. “Discurso em honra de Goethe”. In : _____. Variedades. João Alexandre Barbosa (org.), Maiza Martins de Siqueira (trad.). SP : Iluminuras, 1991.
O sabor dos frutos de uma árvore não depende do aspecto da paisagem que a cerca, mas da riqueza invisível do terreno. (p. 35)
O orgulho de ser um sucesso tão brilhante, de ser um mestre em todas as coisas maravilhosas, o orgulho crescente se aperfeiçoa e eleva-se a este grau metafísico que o iguala a uma modéstia infinita. Não há o menor orgulho em um cedro quando se reconhece como a maior das árvores; (p. 39)
o mundo interior está sempre ameaçado por uma confusão de sensações obscuras, de lembranças, de tensões, de palavras virtuais onde o que queremos observar e apreender altera, corrompe de alguma forma a própria observação. Quase não podemos conceber e esboçar o que significa pensar o pensamento e, a partir desse segundo grau, desde que tentemos elevar nossa consciência a essa segunda potência, imediatamente tudo se perturba... (p. 41)
Mas o que há de mais europeu do que ser seduzido pelo Oriente? (p. 47)
Ele adotou o sistema profundo das transformações insensíveis. Está convencido e como que apaixonado pela lentidão maternal da natureza. Viverá muito tempo. Vida longa, vida plena, elevada, voluptuosa. Nem os homens, nem os deuses foram os cruéis com ele. Nenhum mortal conseguiu reunir, com tanta felicidade, as volúpias que criam às volúpias que ultrapassam e consomem soube dar aos detalhes de sua existência, a seus divertimentos e até aos seus menores aborrecimentos um interesse universal. É um grande segredo saber transformar tudo em néctar para os espíritos. (p. 47-8)
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(lembrança)
"Certa manhã, no dia seguinte a uma pesca muito abundante, na qual muitos atuns foram capturados, eu estava indo à praia para tomar um banho de mar. Primeiro fui a um pequeno molhe para desfrutar aquela luz admirável. De repente, baixando o olhar, percebi a alguns passos de mim, sob a água maravilhosamente lisa e transparente, um horrível e esplêndido caos que me fez estremecer. Coisas, de uma vermelhidão repulsiva, massas de um rosa delicado ou de cor púrpura profunda e sinistra... Jaziam lá. Reconheci horrorizado o medonho amontoado de vísceras estranhas de todo o bando de Netuno que os pescadores haviam jogado no mar. Eu não podia fugir nem suportar o que via, pois a repugnância causada por essa carnificina rivalizava em mim com a sensação de beleza real e singular dessa desordem de coisas orgânicas, desses ignóbeis troféus de glândulas, de onde escapavam ainda fumaças sanguinolentas e bolsas pálidas e trêmulas retidas por não sei que fios sob a camada de água tão clara, enquanto a onda, infinitamente lenta, embalava, na espessura límpida, um estremecimento dourado imperceptível sob toda essa carnificina.
Os olhos gostavam daquilo que a alma abominava. Dividido entre a repugnância e o interesse, entre a fuga e a análise, eu me esforçava em sonhar com o que um artista do Extremo Oriente, um homem com os talentos e a curiosidade de um Hokusaï, por exemplo, poderia fazer desse espetáculo.
Que estampa, que motivos de coral ele poderia conceber! Depois meu pensamento se transportou para o que há de brutal e de cruel na poesia dos antigos. Os gregos não repugnavam ao evocar as cenas mais atrozes... Os heróis trabalhavam como açougueiros. A mitologia, a poesia épica, a tragédia estão cheias de sangue. Mas a arte é comparável a essa camada límpida e cristalina, através da qual eu via essas coisas atrozes: ela nos lança olhares que podem considerar tudo."
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