Thursday, April 08, 2010

Cartas - Camilo Pessanha e Ana de Castro Osório

Ex.ma Senhora

Quero escrever toda esta carta do meu cérebro, como um trabalho meticuloso de análise. E infelizmente o meu pobre cérebro, sinto-o dorido, desfeito por duas noites angustiosas de insônia, pelos incômodos e sobressaltos da jornada, para mim sempre penosíssimos, e pela excessiva tensão do trabalho de uma audiência irritante, até às cinco horas em jejum absoluto por falta do tempo indispensável para tomar qualquer alimento. O meu estado de extrema debilidade mental poderá V. Exª. apreciá-lo, dizendo eu que no fim da audiência ainda não sabia de cor os nomes dos meus dois constituintes, repetidos diante de mim por quinze testemunhas!

Anteontem disse eu a V. Exª. umas palavras tão inoportunas e tão desastradas que um estudante de colégio se envergonharia de as ter dito. Espero que me tenham sido perdoadas. Foi a necessidade, para mim impreterível, de pedir autorização para escrever esta carta, que me o brigou a declarar naquele momento o meu velho desígnio de ter V. Exª. por minha companheira, e a própria maneira brusca por que o declarei, perturbou-me, ao ponto de, para me justificar, dizer todas aquelas palavras que se seguiram, das quais cada uma só ia agravando a minha perturbação.

Lembro-me, por exemplo de ter dito que V. Exª. poderia desde logo decidir das minhas esperanças, porque me conhecia: “que eu sou o que pareço ser”. Isto é de uma falta de delicadeza e de inteligência que deve ter surpreendido muita a V. Exª., porque a mim próprio me surpreendeu. Decididamente, eu sou bem o que pareço.

E acredita V. Exª. que para tanto fui de propósito a Setúbal, tendo meditado um ano?! Desde quando estive em Mangualde. Tenho na memória, vivíssima, a lembrança daquela noite, quando entrei no meu quarto para seguir na madrugada seguinte para Lamego. Embarquei no meu quarto como quem embarca em um navio. Uma efusão de despedidas muito amiga, desvelos que eu nunca poderia esquecer pelo contraste de doçura na minha vida desguarnecida de afectos, desconfortável e desamorável. Para ser tudo, nem a saudade me faltava. V. Exª. Estava, sacrificada, toda tremente do frio.

Como eu quisera ter anteontem podido dizer toda a saudade agradecida desse momento. Frustrado, o meu íntimo poema delicadíssimo!

Há, julgo eu, dizeres obrigatórios nas cartas que precedem o casamento e são os títulos provisórios deste contrato. Nem disso me admiro, visto que os títulos definitivos são escrituras feitas por mão de tabeliões. O contrato de casamento está, como qualquer outro, regulado por disposições do Código Civil em todas as suas minudências, desde os deveres de coabitação e de fidelidade, comuns aos dois cônjuges, até ao de obediência, que é exclusivo da mulher, e ao de administração dos bens comuns, a cargo exclusivamente do marido.

Nunca eu escreveria por minha conta uma dessas cartas oficiais. É uma espécie de hiperestesia do meu senso moral... Por conta de outrem já as escrevi. Uma vez um estudante de medicina quis utilizar em tal emprego as minhas supostas qualidades literárias. Fiz o rascunho de uma carta... e de muitas outras consecutivamente.

Depois tive de interromper a minha formatura, e um dia, passando por Coimbra, fui hospedar-me no Hotel dos Caminhos de Ferro, de que era dono o pai do signatário das minhas cartas. Soube por este que as suas relações epistolares tinham terminado, naturalmente à míngua de prosa do amanuense. E, como eu estivesse no seu quarto e este saísse por um pouco, abri distraidamente um livro de formato comercial, onde encontrei as minhas cartas, copiadas todas na melhor caligrafia.

Há pouco soube que o estudante, já médico, tinha casado em uma terra gorda do Ribatejo, tendo encontrado noiva que lhe trouxesse mais pesado encargo de administração de bens.
Como puderam ambas ser iludidas pela minha prosa impessoal!


Antes quero que esta carta vá fora de todos os preceitos, mas que seja toda escrita por mim, representando cada palavra uma porção de doloroso trabalho intelectual. Só assim poderá ser absolutamente verdadeira, eu só pretendo ser aos olhos de V. Exª. precisamente o que sou. Para que havia de escrever palavras, que de vagas nenhuma impressão me sugerem, e de usadas nenhum relevo têm? Que mais poderia eu oferecer a V. Exª. do que o trabalho do meu cérebro, que eu sinto pensar como um cavador extenuado sente pela própria dor dos músculos cada movimento dos braços.

Minha avó materna morreu no hospital de Coimbra. V. Exª. terá meditado o que é a escravatura da plebe, trabalhando até ao completo esgotamento de forças, instigados por vergastadas nos seus desfalecimentos, e levados de rastos quando já não podem suster-se de pé. Uma vez dizia-me um jornaleiro, velho e doente: “Um homem é como um animal: enquanto não está morto pode caminhar: é questão de lhe darem cacetada.”

Depois, quando a sua carne já não podia estremecer ao estímulo do sofrimento, serviu de sobre ela se fazerem observações anatômicas, indiferentemente, - o triste despojo envilecido.

Vem daqui, penso eu, a minha falta de alegria e este fenômeno de todas as minhas sensações terem sido antes pensamentos: de me sentir pensar e de nunca me esquecer de que o cérebro é um pedaço de massa cinzenta ensanguentada. Daqui esta carta anormal, que me tem levado horas a escrever (agora reparo que só poderá ir no correio de amanhã) e que em V. Exª. deverá causar uma terrível impressão de frio. Porém eu tudo sacrifico, até as minhas esperanças, no desejo de não iludir V.Exª.

Óbidos, IX/8bro/IX93, De V.Exª.
Servo humilde
Camilo Pessanha



Setúbal – 20-10-93

Ex.mo. Sr

Surpreendeu-me, bem viu, a sua declaração no caminho do castelo. Se eu estava tão longe dela! Não pude mesmo encontrar uma palavra para responder. E não podia, mesmo hoje. De viva voz creio que não saberia dizer nada. O meu espírito tem destes acanhamentos que eu não posso vencer. Fiquei triste por não lhe poder dizer alguma cousa; e estes quatro dias tenho sofrido com isso. Mas hoje que recebi a carta de V. Exª. posso já dizer-lhe tudo que sinto. Afligiu-me saber que não tinha por mim, esta simpatia vulgar que quase temos por toda a gente que conhecemos melhor; que sentia por mim mais alguma cousa, que pensava em mim doutra maneira. Diz que eu sou terna: parece-me que é a verdade, ainda que o não sou para a maior parte da gente. Impressiona-me, aflige-me o menor sofrimento das pessoas que sentem alguma cousa de verdade no meio desta comédia toda. Aflige-me principalmente quando esse sofrimento é causado por mim, ainda que involuntariamente.

Agradeço-lhe muito a franqueza de sua carta. É possível que se ela fosse das tais que é costume escrever, nem eu lhe respondesse. Como era uma questão comercial e eu nada entendo disso, encarregaria outros, de agradecerem e recusarem.

Mas não é assim, o Sr. Camilo Pessanha sabe que o compreendi e desejo responder-lhe com igual franqueza, numa carta que estará igualmente fora de todas as regras e de todo o costume.

Não posso aceitar o seu oferecimento porque prometi há muito tempo já, casar com outro homem. Foi quase uma criancice no princípio, tinha apenas 15 anos. Hoje é uma grande dedicação. E creio que ele precisa dela, porque é também um desiludido. Não sei mesmo se ele já mudaria; às vezes parece-me que sim. Mas bem vê que não posso dar a V. Exª. o que prometi a outro. Vulgarmente ninguém se importa com isso. Nunca vi mulher que se prendesse com promessas. Mas eu, sou muito franca, muito leal, para faltar ao que prometo. Mesmo se ele esquecesse estaria eu livre? Creio que não. As faltas dos outros não desculpam as nossas.

É possível mesmo que eu nunca case, o que não acontecerá a V.Exª. que decerto encontra outra mulher que o faça feliz, como eu creio que faria, se nos tivéssemos encontrado antes. E como vai para longe esquecerá a mágoa que porventura lhe fará a minha recusa, mas não deixe de me ter amizade como eu lhe terei sempre. Eu não disse nem digo a ninguém que recebi a sua carta e a sua declaração que muito me envaideceria e que me alegraria se pudesse responder-lhe d´outra maneira. Bem vê que lhe respondo francamente; por isso, se não lhe custar muito, venha despedir-se quando partir. Todos o estimam muito e nada haverá que o constranja no espírito dos outros. Eu desejava que me perdoasse o desgosto que lhe causei e que fosse meu amigo como o é de sua irmã, como eu o sou de V. Exª. Desculpe ainda esta carta sem jeito, mas não sou capaz d´escrever outra. Não sei: é tudo que sinto e assim o compreenderá. E quando mais tarde a olhar a sangue-frio rasgue-a então, que lhe verá todos os erros sem a verdade que lhe pôs nela a

Sua amiga verdadeira

Ana de Castro Osório



Exma. Senhora:

A lembrança da obsequiosa carta de V. Exª. vai ficar na minha memória (para que direi no meu coração?) inolvidável pelas consolações que me trouxe. Poderá esta afirmação parecer a V.Exª. um absurdo, ou o desmentido das próprias esperanças que eu na minha anterior carta confessara, e que eram verdadeiras (V. Exª. o acredita decerto), apesar de, bem o reconheço, terem vivido alimentadas exclusivamente da minha vida, e aquecidas exclusivamente do meu calor. Nos tristes casebres da Beira, de lousa solta e de telha vã, aquela pobre gente costuma guardar como ornamento, e pelas grandes virtudes que lhe atribui, a haste cortada de uma planta chamada bálsamo. Julgo que este nome lhe provém da sua extrema frescura, que se aproveita aplicando as folhas como refrigério sobre as queimaduras; mas não é menos certo que poderia derivar do fenômeno, que eu tenho observado, de aquela haste, colocada fora de todas as condições aparentes da vida vegetal, ser tão vivaz que constantemente se vai enfolhando de novo, à custa das folhas velhas que vão fenecendo.

Nos “Casos raros da confissão”, há uma pobre condenada que caminha o seu fado através as solidões da eterna noite “a cavalo em um feio dragão”. Dos lados acompanham-na “dois temíveis cães”, que com as presas lhe vão lacerando os músculos das pernas em constantes investidas. Mordida nos seios por duas víboras. Estrangulada por uma serpente, que se lhe enrosca no pescoço em colar. Uma longa enumeração de tormentos, - todo um compêndio de zoologia distribuído em anéis e arrecadas, manilhas e braceletes, picaduras de tarântulas, que injectam venenos de fogo. E, como tão grandes torturas não sejam bastantes para convulsionar os nervos embotados do frade inquisidor que imaginou o livro “um bugio vai quebrando à condenada os dentes com uma pedra”.

Só eu posso compreender bem o requinte desta última crueldade. Aos pavores da epilepsia, legado que eu herdei transmitido por minha mãe (a qual já se tem debatido longos períodos no cárcere tenebroso da loucura), às misérias da minha existência desamparada e vagabunda, têm-se reunido os desprezos, por vezes insolentes, de quem quase sempre me é inferior. A cavalo em cada “feio dragão” dos meus pesadelos, têm sempre viajado comigo bugios de carne e osso incumbidos especialmente de me quebrarem os dentes.

Não estou habituado a que alguém amorteça os golpes que vou recebendo, ou sequer ate depois as feridas com as brancas ligaduras misericordiosamente. Se alguma vez sinto menos a dor, é pela anestesia que resulta da desproporção do sofrimento. E a carta de V. Exª. foi tão escrupulosa em atenuar o golpe inevitável, que chegou a ungir de piedade as velhas úlceras cancerosas.

Vou partir, diz V. Exª., para longe: arrastar-me e sangrar. Mas levo ao menos a dúlcida memória deste incidente. Ninguém haverá da minha idade que não tenha tido a deleitação de alguma longa correspondência amorosa. Palavras tão maternalmente benignas com as que V. Exª. me dirigiu, talvez nenhum as tenha lido nem ouvido.

Recomenda-me V. Exª. que rasgue a sua carta quando a puder ler indiferentemente. Ainda que me fosse dado obedecer, quando chegaria a ocasião de tornar efectiva a obediência? Quando poderia eu ler a carta de V. Exª. sem comoção, pelo menos sem a serena comoção das lágrimas agradecidas?

Restituo-a. não me pertence, íntima como é, e escrita por uma excessiva compreensão dos deveres de primorosa cortesia e de amizade: guardo apenas das suas palavras a saudade puríssima, que é minha.

Porém a minha primeira, e esta última (tão longa, onde vai o meu abuso!) peço a V. Exª. que não as devolva. Foram escritas para V. Exª. (quem mais as compreenderia?), e deixaram de pertencer-me, por isso, todas as tumultuárias impressões, de que V. Exª. não é culpada, embora, e de que eu atropelei e denegri esta meia dúzia de páginas, as melhores que porventura terei escrito. A V. Exª., somente, compete rasgá-las. Pois de que serviriam, com as suas manchas estranhas, negro e sangue, um dia, na corbeille de noiva?

Quando estudante, muitas vezes formulei comigo a seguinte pergunta: se dos meus oitenta condiscípulos setenta e oito eram os monstros de matéria que eu conheci, o que não seriam as setecentas e oitenta irmãs e primas de todos eles, se não tiveram sequer a espiritualizá-las as palmatoadas no colégio, os sustos pelas lições e pelos exames, e os RR?

E, todavia, diz V. Exª. que eu encontrarei outra mulher, que me fará feliz. É, com efeito, provável, quase certo que eu me resigne (não é a resignação a maior das felicidades segundo a “Imitação de Cristo”?) a ser o marido, o doente de que seja enfermeira qualquer das setecentas e oitenta. Assim há-de ser quando o isolamento, longe de quatro amigos intelectuais, meu único amparo, as contrariedades, talvez as febres do pântano africano e com certeza as últimas desilusões, tiverem aniquilado de todo a minha vontade e despontado os meus orgulhos, que são como espinhos de ferro.

Diz-me V. Exª. que não queria perder a sua amizade. Porque haveria de perdê-la? Somente poderia sê-lo pelo mal que fiz obrigando V. Exª. a entristecer e afligir-se pelas minhas tristezas. E a prova mais completa da minha amizade é esta carta serena e lúcida. Obedecerei a V. Exª. indo despedir-me antes de partir; amizade incondicional.

De V. Exª.

Servo humilde e agradecido
Camilo Pessanha



(In: Colóquio/Letras, n. 155/156, jan-jun 2000. Lisboa : Gulbenkian, p. 43-50.)

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