Thursday, May 06, 2010

Confúcio - "Tì tzu kuei"

"Tì tzu kuei" é a transcrição possível para o título de um livro confucionista, escrito, provavelmente, durante a dinastia Sung (970-1279). Trata-se de uma compilação de ensinamentos, visando a formação de uma criança. Procedemos à tradução desse livro, que entendemos importante, nos dias de hoje, em vista da confusão ética em que nos encontramos. A filosofia de Confúcio (séc. VI a.C.) pauta-se por um padrão de excelência nas relações humanas. Vejamos de que forma o filósofo entendia essa excelência, para uma criança.

("tì tzu" = discípulo / "kuei" = regra)

A Regra do Discípulo

(Conteúdo)

1

A regra do discípulo é um sermão para os santos:

em primeiro lugar, o amor filial e a fraternidade;

depois, a prudência e a credibilidade;

o amor universal, e, em seguida,

a proximidade da Sabedoria;

por fim, o tempo que se precisa ter

para estudar os bons livros.

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* Aqui estão os principais tópicos da formação da criança: o respeito devido aos pais, o amor devido aos irmãos, o cuidado devido à própria vida, o respeito devido à sociedade, o amor devido a todas as coisas, a necessidade da busca da Sabedoria e o tempo devido ao estudo das boas obras.

(O Amor filial)

2

Quando o nosso Pai ou a nossa Mãe

nos chamam

é importante responder imediatamente.

Quando nos ordenam,

é preciso responder prontamente.

Quando nos ensinam,

é preciso ouvir-los com respeito.

Quando se zangam,

é necessário obedecer-lhes.

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Há que se pensar, aqui, quem são o Pai e a Mãe, de que nos fala Confúcio. Se admitirmos um caráter esotérico, que certamente lhe é atribuível, o ensinamento pode se referir aos nossos "instintos", ou ao nosso "Anjo da Guarda", ou à nossa "consciência". Se estamos ligados, em profundo respeito e amor, a Deus e aos Seus, então as ordens dadas por essas criaturas elevadas devem ser obedecidas de pronto. "Não vá além daquele portão." "Não se aproxime daquela pessoa", "Veja o óleo do carro". Todas essas ordens e conselhos, sentidos interiormente, devem ser atendidos sem hesitação. Uma interpretação do texto, utilizando essa chave, pode ser muito útil a quem queira se dedicar ao caminho espiritual.

3

No Inverno, aquecer.

No Verão, arejar.

Bem cedo, acordar.

Acalmar, ao anoitecer.

A vida tem uma rotina, um equilíbrio,

uma estabilidade.

Assim também o homem:

deve avisar, quando chega

e deve dizer, quando sai.

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Essa lição foi bem modificada por mim, a fim de garantir uma leitura que apreenda mais rapidamente o significado. O equilíbrio, expresso pela troca das estações, é uma das manifestações da "rotina" da vida. O homem, guiando-se pelo exemplo do Sol (que acorda de manhã cedinho e se põe ao fim da tarde), deve usar a Palavra para fazer as vezes da claridade "onipresente" do astro (não sendo, naturalmente, claro e grande como o Sol, o homem deve "avisar" quando sai e quando entra). Considerações mais "esotéricas" podem ser tecidas...

4

O pequeno não pode decidir sozinho

o que fazer. Do contrário,

terá um grave defeito.

O pequeno não pode esconder o que tem,

senão, os pais ficarão muito tristes.

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A lição parece fácil, e sem problemas percebemos que: se uma criança é acostumada a escolher, decidir e pensar por si própria, desde uma idade muito tenra, terá o grave defeito de não obedecer a nenhum mestre, ou aos professores, pais, patrões, etc. Num plano mais "espiritual", digamos, isso significa que o "pequeno" (o "ego", ou "eu" inferior) deve se acostumar a receber ordens do "Eu" Superior, o "Espírito", ou seja, a melhor parte de cada um de nós (a parte intelgiente e "divina"). Na segunda frase, diz-se que o "pequeno" não pode esconder o que tem (seja um doce, um brinquedo, ou mesmo uma grande qualidade), sob pena de deixar os pais (o "Eu Superior", talvez) muito tristes, com o seu egoísmo. Indica-se, aqui, a total dependência que deve ser criada na criança, em relação aos pais: não se deve agir por conta própria, nem se deve guardar algo só para si. Os pais devem ser consultados sobre a ação, e avisados sobre os pertences. Só assim os "pequenos" poderão ser bem aconselhados quanto ao uso.

5

Esforce-se por fazer

bem

aquilo de que os pais gostam,

e tenha o cuidado de tirar

aquilo de que não gostam.

Se o corpo se machuca,

os pais ficam preocupados.

Se a virtude se machuca,

eles sentem vergonha.

Quando os pais te amam,

o respeito, o amor filial, não são difíceis.

Quando os pais te detestam,

o respeito, o amor filial são mais meritórios.

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O problema apresentado por essa tradução se refere ao termo "hsiao", que designa um sentimento, misto de respeito, amor, devoção aos pais. Freqüente, o equivalente, em Português é: "piedade filial". De início, Confúcio chama a atenção para que nos esforcemos por agradar os pais, seguindo seus conselhos. Em seguida, chama a atenção para cuidarmos do corpo e, acima de tudo, da moral. E, por fim, exorta-nos a amar os pais, mesmo que não sejamos correspondidos de forma alguma. Poderíamos falar, aqui, de: "amor incondicional".

6

Se os pais têm erro,

é nosso dever aconselhá-los,

com o rosto alegre,

com a voz macia.

Caso o conselho não funcione,

felizes, de novo, aconselhamos.

Se os conselhos não funcionam, porém,

só nos resta chorar.

E, se eles nos batem,

não reclamamos.

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Os pais também têm defeitos, e é dever do filho aconselhá-los. Mas, a deferência deve ser mantida.

7

Se os pais estão doentes,

o filho, primeiro, experimenta o remédio.

Dia e noite

fica a serviço.

De perto da cama não sai.

Em caso de morte,

o luto é de três anos.

Nada se muda, no lugar onde moravam.

Não se comemora nada.

É preciso observar cuidadosamente as regras.

A oração deve ser muito sincera.

O morto deve ser tratado

como se estivesse vivo.

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Confúcio sabia das coisas. Na primeira parte dessa lição, está o cuidado que os filhos devem ter, com os pais que se adoentaram. Na segunda parte, os conselhos se referem, sabiamente, à vida após a morte: os "mortos" continuam vivos, e, por isso, a deferência deve ser mantida.


(A Fraternidade)

8

Quando o irmão mais velho é amigo da verdade,

e o irmão mais novo respeita a verdade,

então, há harmonia entre os irmãos.

Quando se incorpora o amor filial,

tudo quanto é material perde importância.

Por que reclamar?

Se as palavras têm tolerância,

como podem se desenvolver a raiva e a infelicidade?

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Essa é a primeira regra da Fraternidade (ou seja, a primeira regra que diz respeito aos relacionamentos FORA de casa). A harmonia entre os irmãos depende da devoção de cada um à mesma Verdade.

9

Ao beber, ao comer,

ao sentar, ao andar,

o mais velho em primeiro lugar

e o mais jovem atrás.

O mais velho chama,

e imediatamente se deve atendê-lo.

Se a pessoa chamada não está,

é preciso avisá-lo imediatamente.

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Sempre seguir o mais velho. Sempre.

10

Não se deve chamar o mais velho

pelo nome.

Não se deve mostrar sabedoria

na frente do mais velho.

Encontrando-o na rua,

é preciso rápido cumprimentá-lo.

Caso ele não fale,

é preciso ficar em pé, atrás dele, em muito respeito.

Encontrando com ele,

é preciso descer do cavalo,

descer da carroça,

e esperá-lo passar

mais de cem passos.

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A regra "descer da carroça" e esperar o idoso passar "além de cem passos" é, em nossos dias, algo a ser observado "espiritualmente".

11

Quando o mais velho está em pé

o mais jovem não se senta.

Primeiro, o idoso se senta,

e só depois manda o jovem se sentar.

Em frente ao idoso

é preciso falar baixo,

mas ser audível.

Para entrar, é preciso não demorar,

mas, para sair, é preciso demora.

Caso ele pergunte alguma coisa,

não mudar a visão, ao responder.


12

É preciso servir o tio

como se se serve o pai,

e servir o primo mais velho

como se serve o irmão mais velho.


(A Prudência)

13

Quando se levanta de manhã

e se dorme à noite,

é fácil atingir a longevidade.

Esse tempo não pode ser perdido.

De manhã, é preciso lavar o rosto,

lavar a boca,

e, a cada vez que se vai ao vaso,

é preciso lavar as mãos.

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Disciplina, em outras palavras. ..


14

Chapéu correto,

botões atados,

meias certinhas

nos sapatos bem amarrados.

Tudo tem um lugar e uma maneira corretas,

e não se deve misturar as roupas sujas

com as roupas limpas.

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Para Confúcio, o homem é (ou deve ser) uma representação de Deus. (Feito à "sua imagem e semelhança"). Daí o apreço pela aparência.

15

As roupas não precisam ser caras,

mas precisam ser limpas

e adequadas.

Não se deve escolher

o que beber, o que comer,

e não se deve ir além

do suficiente.

Quando se é jovem

é melhor se abster de álcool.

O alcoolismo

é horrível...

16

Moderação no andar,

correção no estar em pé,

profunda curva, na reverência.

Não pisar na soleira.

Não se encostar aos móveis e paredes.

Não estender o pé, ao estar sentado.

Não rebolar, ao andar...


17

Sobe-se a cortina devagar,

sem fazer barulho.

A curva deve ser feita largamente,

sem tocar os cantos.

Segura-se o prato vazio

como se segura o cheio.

Entra-se no quarto vazio

como se alguém estivesse lá.

Não fazer nada correndo.

Não temer o difícil,

nem subestimar o fácil.

Lugares de maus sentimentos,

sequer passar perto...

Não querer saber

do que é péssimo.

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"Não perguntar detalhes do que é ruim".


18

Quando entrar pela porta
perguntar quem está.
Quando na sala de visitas,
é preciso chamar alto.
Se alguém pergunta "Quem é?"
deve-se responder usando o nome,
e com clareza.
Com clareza se deve pedir

para usar a coisa de alguém
- do contrário, trata-se de roubo.
Ao emprestar de alguém alguma coisa,
é preciso dar satisfação na hora marcada.
Do contrário, mesmo na urgência,
é difícil conseguir de volta.


(Confiança, Credibilidade)

O que quer que saia de sua face,

em primeiro lugar, deve ter credibilidade.
Se não temos credibilidade,

o que faremos?..

É melhor falar pouco

do que falar muito.

Não bajular,

mas falar a verdade.

As palavras muito ruins

sujam o vocabulário.
Muito importante não transmitir

a energia das cidades.

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O que Confúcio entende por "energia das cidades": falar alto, falar em termos materialistas, propagar a vaidade, etc.

19

Quando ainda não se sabe a verdade,

não se deve falar.

Não se deve falar

sem ter certeza do que diz.

Não se deve prometer facilmente,

sem ter certeza de que é o bem.

A promessa feita levianamente

leva, fatalmente, ao erro.

O que quer que seja falado

deve ser claro.

Não se deve falar rapidamente.

Não se deve falar aqui, uma coisa,

lá, outra coisa.

E o que não tem relação conosco

não deve ser assunto nosso.

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Confúcio diz: "não devemos nos meter no que não é assunto nosso".

20

Quando vemos uma pessoa bondosa,
é preciso aprender, imediatamente.
Pouco a pouco

alcança-se o talento.
Quando vemos uma pessoa maldosa,

é preciso, imediatamente, refletir.
O que precisa ser corrigido

deve ser corrigido na hora.

Se não há nada a ser corrigido,

é preciso aumentar o alerta.

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"Vigilância", sempre. "Refletir", no caso, pode ser entendido, literalmente, como "não absorver".


21

Se a habilidade

e o conhecimento das virtudes

não é como o de outra pessoa,
imediatamente nos pomos a esforçar.

Se as roupas, bebida, e comida
não são como os de outra pessoa,

não devemos nos enraivecer.

22

Ao ouvirmos nossos erros,
ficamos com raiva.
Ao ouvirmos elogios,
ficamos felizes.
Quando vem o amigo ruim
vai embora o amigo bom.
Ao ouvirmos um elogio,
devemos ter medo.
Ao ouvirmos um erro,
devemos ficar felizes.
Assim, atraímos, pouco a pouco,

as pessoas boas, corretas,

leais, verdadeiras e educadas.

23

Ao erro não intencional,

chamamos "erro".
Ao erro intencional

chamamos "pecado".
Um "erro" pode ser corrigido completamente.
Mas, um erro que se esconde

aumenta um pecado.

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A importância da "confissão"..


(O Amor Universal)

24

Qualquer pessoa
deve a tudo amar.
O mesmo céu nos cobre,
e a mesma terra nos carrega.

25

Se uma pessoa se conduz pelo Bem,
seu nome é igualmente Alto.
O que importa, assim,

não é a alta aparência...
A pessoa de alta capacidade

tem, naturalmente, alta fama.
O respeito que se deve a uma pessoa

não vem do que diz ou do que dizem dela..


26

Não sejamos egoístas de nossas capacidades,
nem invejosos das capacidades dos outros.
Não bajulemos o rico, nem nos orgulhemos
perante os pobres.
Não desfaçamos das coisas velhas,
nem nos deslumbremos com as coisas novas.
Não perturbe quem está ocupado,
e não deixe mais preocupado quem já está preocupado...

27

Não exponha ao público
o defeito de ninguém,
nem, revele qualquer segredo.
Mas, propagar a bondade de uma pessoa
é ser, igualmente, bondoso.
A pessoa, sabendo disso,
procurará fazer melhor.
Se propagamos o mal de uma pessoa,
somos, igualmente, maus,
e tomamos muita dor, muita aflição.
Encorajar o bem comum
é construir, sempre, a virtude.
Não corrigir o erro
é perder a moral.

28

Ao dar e ao receber
é preciso ter clareza.
É melhor dar bastante
e receber pouco.
Ao pedir, é preciso
perguntar a si mesmo
se você mesmo não queria (?).
Caso isso aconteça, é preciso parar, na hora.
Retribua o amor desconhecido.
Esqueça o rancor.
Retribua o rancor, imediatamente, com o esquecimento,
e retribua, longamente, o amor...

29

Deve-se tratar os empregados
da maneira correta, usando de caridade
e tolerância.
Pode-se usar o poder,
para subjugar as pessoas,
mas o coração delas não pode ser subjugado assim...
A Verdade supera o mundo,
e, quando ela é dita, todo se aquietam.


(Perto da Sabedoria)

30

Todas as pessoas são iguais,
mas os "tipos" de pessoas são muito variados.
As pessoas comuns são muitas,
mas as pessoas especiais são poucas...

O Sábio é corajoso.
Não se intimida, ao falar a verdade,
e não adula ninguém.

Se pudermos estar próximos de um Sábio,
isso é indescritivelmente bom.
Nossos méritos aumentam a cada dia,
e nossos erros diminuem a cada dia.

Mas se não estamos perto de um Sábio,
isso é, indescritivelmente, ruim...

Caso uma pessoa inferior se aproxime, então,
não há como descrever como seja pior...

(Estudar bons livros)

Os estudos devem ser profundos,

nunca superficiais.

não esforça

mas só de livros

mas se se esforça

não aprende

usar sua cabeça

não é claro entender (apego)

31

O estudo deve atingir
o coração, os olhos e a boca.

É muito importante, quando estudamos,
não pensar em outro assunto.
Enquanto não terminamos um livro,
não comecemos um outro.
Os limites, para o estudo, devem ser largos.
Mas, o esforço deve ser restrito.
A prática nos dá acesso aos problemas.
Se temos dúvidas,
na hora, devemos anotá-la.
Ao ver alguém,
devemos, imediatamente, perguntar.


32

O quarto de estudos deve ser limpo.
A parede, limpa.
A escrivaninha, limpa.
As canetas devem estar em ordem,
e os lápis, apontados.

Se o coração não está correto,

as palavras não têm respeito.
O lugar dos livros deve ser fixo.
Depois de consultá-los,
deve-se guardá-los no lugar,
para o caso de urgência, saber encontrá-los.
Amarrar certinho os manuscritos
e, se têm defeito,
é preciso, na hora, consertá-los.
Se o livro não é um "sutra",
é melhor não lê-lo,
pois o mau livro fecha a inteligência
e estraga os propósitos do coração.
Não o jogue fora,
nem desanime:
a santidade se alcança
devagar.

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