Todo homem é uma ilha, disse o Iluminado. Importa-nos sermos o rei dessa ilha, mais do que de outra, exterior. A ilha exterior não é eterna como a interior, onde deve haver reinado, conquistado, não à espada, mas ao duro calor. Enfim, estavam andando, Princeso e Principeza, ambos com seus reinos conquistados. Andavam por uma alameda, e as flores brincavam de existir na copa das árvores. Eles percebiam as flores como odores externos. E, reais sem realeza alguma, subiam os barrancos.
Até que uma hora, resvalaram na grama orvalhada e vieram ter a um aquário de peixes, um laguinho, de cristalina e plantas, bem ao lado do verde.
Todo homem é uma ilha, disse o Iluminado. Conscientes disso, eles se beijaram.
E formou-se uma nova Ilha.
Os sonhos, como satélites. Tornamo-nos astrônomos, olhando o céu, mais do que agricultores, que não têm sonhos, se isso é possível. Vejamos o céu, como foi um presente para a memória o céu de estrelas apenas azul por entre os galhos do pessegueiro florido, as florezinhas rosas, anoitecidas. Como foi aceso.
Princezo e Principeza viviam assim, sem acreditar em nada que não fosse a bela sucessão infixável dos sonhos. Os sonhos, como Medusa, eram temíveis, e por isso eles abaixavam os olhos. Até que passasse a torrente dos sonhos que velavam os maiores, abaixavam os olhos. Olhar o céu nem sempre é belo. Eles sabiam disso, cada qual em sua ilha. Novos sonhos passeavam, novos. E era tudo realidade.
Desejos: não acrediteis em nenhum.
Sunday, February 24, 2008
Sunday, February 10, 2008
Ingleza paisagem
Inglesa paisagem
Inglesas águas
em cujo caminho flutuam
névoas. Grande mordacidade do vento
ao frio da manhã sem vento.
Águas
e em torno
verão de orvalhos
Águas
e em torno
em amarelos e verdes
derretida
neva...
E os barrancos colorem
sem perceber
o gado em seu descer...
*
cottage
E a minha aldeia não é a Inglaterra
embora seja,
em dias como esse,
de sol vivo em flores e matas
frias.
Propriedade – uma vilazinha de invisíveis.
*
milk
A sombra bendita
lá longe
termina
numa vibração de sol
a grama desse sol...
A sombra bendita
lá longe
é tão fria
quanto esta
- Ah, a cuia de borracha
que a seringueira me ofertou...
Inglesas águas
em cujo caminho flutuam
névoas. Grande mordacidade do vento
ao frio da manhã sem vento.
Águas
e em torno
verão de orvalhos
Águas
e em torno
em amarelos e verdes
derretida
neva...
E os barrancos colorem
sem perceber
o gado em seu descer...
*
cottage
E a minha aldeia não é a Inglaterra
embora seja,
em dias como esse,
de sol vivo em flores e matas
frias.
Propriedade – uma vilazinha de invisíveis.
*
milk
A sombra bendita
lá longe
termina
numa vibração de sol
a grama desse sol...
A sombra bendita
lá longe
é tão fria
quanto esta
- Ah, a cuia de borracha
que a seringueira me ofertou...
Monday, February 04, 2008
Wenceslau de Moraes, 1923
"Ora, há um certo tempo para cá, aprendendo na experiência da vida, - são os velhos e as creanças que mais aprendem n´este mundo, - tenho-me vindo convencendo de que correm apreciações mal avisadas, direi mesmo muito errôneas, respeitantes ao homem solitário, - solitário como hoje se pode imaginal-o, construindo a sua thebaida em qualquer centro do mundo civilisado... visto que o mundo inteiro se civilisou. – Quer-me parecer que ao homem solitário, isolado quanto possível do convívio do mundo, cabem mal as lamentações caridosas que os seus contemporâneos lhe dispensam, n´um impulso presumivelmente altruísta, de sincera benevolência. Mas não há homem solitário. O homem solitário, que não vê em torno de si senão a si, que não ouve em torno de si senão a si, não existe; acompanham-n´o, se não outros seres humanos, a lembrança de muitos seres humanos, e o interesse por toda a humanidade, melhor ainda, por toda a creação. Está pois muito bem acompanhado. Porque, pensemos bem: - quem vive mais em isolamento, não é o homem que se encontra mais isolado n´este mundo, sem família, sem amigos, sosinho, recolhido no seu obscuro albergue; mas sim o outro homem, ou antes os outros homens (pois são elles que formam legião), os homens embrenhados na vida social, agitados pelo redemoinho das paixões, dos interesses, das competências, das rivalidades, dos gosos, dos desejos, das ambições. Lembremo-nos de que, para esta grande cathegoria de homens, na hypothese que mais os nobilita, a humanidade é, no fim de contas, a família; pois é para a família que elles trabalham com afan, é ella que elles amam com carinhoespecial, é n´ella que elles pensam com particularíssimo desvelo, é por ella que elles soffrem; em quanto que para o homem solitário, que vive sem família, a família é a humanidade. Não; muito mais do que isso; a família é a creação, a creação inteira. Quero dizer: - no homem em isolamento, as qualidades affectivas, não encontrando, próximo, estímulos de exercício, expandem-se para longe, como que em emanações de amor por todos e por tudo; resultando, para elle, um certo estado de alma, desconhecido dos homens como vulgarmente elles se encontram, palpitando, em commum, da vida irrequieta dos centros sociaes.
Não façamos questão de palavras. Conservemos a denominação de homem solitário, para não nos darmos ao incommodo de ir procurar outra melhor, que talvez não acharíamos. Mas, se viver é sentir, é amar, é pulsar em commoções, é gosar, é soffrer... então, digamos que o homem solitário também vive, vive mesmo uma vida mais intensa do que a vida do homem social..."
Não façamos questão de palavras. Conservemos a denominação de homem solitário, para não nos darmos ao incommodo de ir procurar outra melhor, que talvez não acharíamos. Mas, se viver é sentir, é amar, é pulsar em commoções, é gosar, é soffrer... então, digamos que o homem solitário também vive, vive mesmo uma vida mais intensa do que a vida do homem social..."
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