"Ora, há um certo tempo para cá, aprendendo na experiência da vida, - são os velhos e as creanças que mais aprendem n´este mundo, - tenho-me vindo convencendo de que correm apreciações mal avisadas, direi mesmo muito errôneas, respeitantes ao homem solitário, - solitário como hoje se pode imaginal-o, construindo a sua thebaida em qualquer centro do mundo civilisado... visto que o mundo inteiro se civilisou. – Quer-me parecer que ao homem solitário, isolado quanto possível do convívio do mundo, cabem mal as lamentações caridosas que os seus contemporâneos lhe dispensam, n´um impulso presumivelmente altruísta, de sincera benevolência. Mas não há homem solitário. O homem solitário, que não vê em torno de si senão a si, que não ouve em torno de si senão a si, não existe; acompanham-n´o, se não outros seres humanos, a lembrança de muitos seres humanos, e o interesse por toda a humanidade, melhor ainda, por toda a creação. Está pois muito bem acompanhado. Porque, pensemos bem: - quem vive mais em isolamento, não é o homem que se encontra mais isolado n´este mundo, sem família, sem amigos, sosinho, recolhido no seu obscuro albergue; mas sim o outro homem, ou antes os outros homens (pois são elles que formam legião), os homens embrenhados na vida social, agitados pelo redemoinho das paixões, dos interesses, das competências, das rivalidades, dos gosos, dos desejos, das ambições. Lembremo-nos de que, para esta grande cathegoria de homens, na hypothese que mais os nobilita, a humanidade é, no fim de contas, a família; pois é para a família que elles trabalham com afan, é ella que elles amam com carinhoespecial, é n´ella que elles pensam com particularíssimo desvelo, é por ella que elles soffrem; em quanto que para o homem solitário, que vive sem família, a família é a humanidade. Não; muito mais do que isso; a família é a creação, a creação inteira. Quero dizer: - no homem em isolamento, as qualidades affectivas, não encontrando, próximo, estímulos de exercício, expandem-se para longe, como que em emanações de amor por todos e por tudo; resultando, para elle, um certo estado de alma, desconhecido dos homens como vulgarmente elles se encontram, palpitando, em commum, da vida irrequieta dos centros sociaes.
Não façamos questão de palavras. Conservemos a denominação de homem solitário, para não nos darmos ao incommodo de ir procurar outra melhor, que talvez não acharíamos. Mas, se viver é sentir, é amar, é pulsar em commoções, é gosar, é soffrer... então, digamos que o homem solitário também vive, vive mesmo uma vida mais intensa do que a vida do homem social..."
Monday, February 04, 2008
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