Sunday, October 04, 2009

Lord Byron (1788-1824) - Solitude

To sit on rocks, to muse o´er flood and fell,
To slowly trace the forest´s shady scene,
Where things that own not man´s dominion dwell,
And mortal foot hath ne´er or rarely been;
To climb the trackless mountain all unseen,
With the wild flock that never needs a fold;
Alone o´er steeps and foaming falls to lean;
This is not solitude, ´tis but to hold,
Converse with Nature´s charms, and view her stores unrolled.

But midst the crowd, the hurry, the shock of men,
To hear, to see, to feel and to possess,
And roam alone, the world´s tired denizen,
With none who bless us, none whom we can bless;
Minions of splendour shrinking from distress!
None that, with kindred consciousness endued,
If we were not, would seem to smile the less
Of all the flattered, followed, sought and sued;
This is to be alone; this, this is solitude!

Sentar às rochas, e pensar na seca, na enchente;
Caminhar lentamente no cenário da floresta enevoada,
onde moram coisas que não possuíram bens humanos;
onde pés mortais jamais, ou raramente, andaram.
Escalar, com o rebanho selvagem, a invisível
montanha sem trilhas, aquele, que nunca precisou
de currais, Estar sozinho
entre alcantiladas e espumantes cachoeiras a jorrar:
não é solidão, isso tudo, mas celebração,
um conversar com os encantos da Natureza
e ver suas reservas escondidas...

Mas, em meio a um milhão, no tumulto e no encontro dos homens,
Ouvindo, vendo, sentindo e possuindo,
vagando sozinhos, cidadãos estrangeiros e cansados do mundo,
sem ninguém que os abençoe, ninguém a se abençoar;
Servos do esplendor a se encolherem de aflição!
Tudo o que é lisonjeado, tudo o que é procurado, seguido,
descoberto, ao menos pareceria nos sorrir.!, se não tivéramos
consciência afinada e de privilégio: assim, isso, isso, verdadeiramente,
é a Solidão...

Paul Valéry - pérolas

"Assim, rever e prever, recuperar no passado e pressentir parecem-se muito em nós mesmos, que só podemos oscilar entre imagens e para quem o eterno presente é como o batimento entre hipóteses simétricas, uma que supõe o passado, outra que propõe o futuro." ("Discurso sobre a História")

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"Poesia e pensamento abstrato"

"Acrescentarei mesmo esta opinião paradoxal: que se o lógico nunca pudesse ser algo além de lógico, ele não seria e não poderia ser um lógico; e que se o outro nunca fosse algo além de poeta, sem a menor esperança de abstrair e de raciocinar, ele não deixaria atrás de si qualquer traço poético. Penso sinceramente que se todos os homens não pudessem viver uma quantidade de outras vidas além da sua, eles não poderiam viver a sua."

"Reconhece-se o poeta - ou, pelo menos, cada um reconhece o seu - pelo simples fato de que ele transforma o leitor em 'inspirado'. A inspiração é, positivamente falando, uma atribuição gratuita feita pelo leitor a seu poeta: o leitor nos oferece os méritos transcendentes das forças e das graças que se desenvolvem nele. Ele procura e encontra em nós a causa admirável de sua admiração."

Na prosa, o som leva ao sentido.
Na poesia, há uma oscilação entre som e sentido, um vai-e-vem
Pode-se falar num movimento direto, e em outro, pendular


"Na verdade, um poema é uma espécie de máquina de produzir o estado poético através das palavras. O efeito dessa máquina é incerto pois nada é garantido em matéria de ação sobre nossos espíritos. Mas qualquer que seja o resultado e sua incerteza, a construção da máquina exige a solução de muitos problemas. Se o termo 'máquina' os choca, se minha comparação mecânica parece grosseira, observem que a composição de um poema pode durar muitos anos, ao passo que o leitor a recebe em alguns minutos. E recebe o choque de criações, de vislumbres, acumulados em meses de procura, espera, paciência e impaciência. Atribuirá, enfim, à inspiração muito mais do que ela pode dar."

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VALÉRY, Paul. “Discurso em honra de Goethe”. In : _____. Variedades. João Alexandre Barbosa (org.), Maiza Martins de Siqueira (trad.). SP : Iluminuras, 1991.

O sabor dos frutos de uma árvore não depende do aspecto da paisagem que a cerca, mas da riqueza invisível do terreno. (p. 35)


O orgulho de ser um sucesso tão brilhante, de ser um mestre em todas as coisas maravilhosas, o orgulho crescente se aperfeiçoa e eleva-se a este grau metafísico que o iguala a uma modéstia infinita. Não há o menor orgulho em um cedro quando se reconhece como a maior das árvores; (p. 39)

o mundo interior está sempre ameaçado por uma confusão de sensações obscuras, de lembranças, de tensões, de palavras virtuais onde o que queremos observar e apreender altera, corrompe de alguma forma a própria observação. Quase não podemos conceber e esboçar o que significa pensar o pensamento e, a partir desse segundo grau, desde que tentemos elevar nossa consciência a essa segunda potência, imediatamente tudo se perturba... (p. 41)


Mas o que há de mais europeu do que ser seduzido pelo Oriente? (p. 47)


Ele adotou o sistema profundo das transformações insensíveis. Está convencido e como que apaixonado pela lentidão maternal da natureza. Viverá muito tempo. Vida longa, vida plena, elevada, voluptuosa. Nem os homens, nem os deuses foram os cruéis com ele. Nenhum mortal conseguiu reunir, com tanta felicidade, as volúpias que criam às volúpias que ultrapassam e consomem soube dar aos detalhes de sua existência, a seus divertimentos e até aos seus menores aborrecimentos um interesse universal. É um grande segredo saber transformar tudo em néctar para os espíritos. (p. 47-8)

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(lembrança)

"Certa manhã, no dia seguinte a uma pesca muito abundante, na qual muitos atuns foram capturados, eu estava indo à praia para tomar um banho de mar. Primeiro fui a um pequeno molhe para desfrutar aquela luz admirável. De repente, baixando o olhar, percebi a alguns passos de mim, sob a água maravilhosamente lisa e transparente, um horrível e esplêndido caos que me fez estremecer. Coisas, de uma vermelhidão repulsiva, massas de um rosa delicado ou de cor púrpura profunda e sinistra... Jaziam lá. Reconheci horrorizado o medonho amontoado de vísceras estranhas de todo o bando de Netuno que os pescadores haviam jogado no mar. Eu não podia fugir nem suportar o que via, pois a repugnância causada por essa carnificina rivalizava em mim com a sensação de beleza real e singular dessa desordem de coisas orgânicas, desses ignóbeis troféus de glândulas, de onde escapavam ainda fumaças sanguinolentas e bolsas pálidas e trêmulas retidas por não sei que fios sob a camada de água tão clara, enquanto a onda, infinitamente lenta, embalava, na espessura límpida, um estremecimento dourado imperceptível sob toda essa carnificina.

Os olhos gostavam daquilo que a alma abominava. Dividido entre a repugnância e o interesse, entre a fuga e a análise, eu me esforçava em sonhar com o que um artista do Extremo Oriente, um homem com os talentos e a curiosidade de um Hokusaï, por exemplo, poderia fazer desse espetáculo.

Que estampa, que motivos de coral ele poderia conceber! Depois meu pensamento se transportou para o que há de brutal e de cruel na poesia dos antigos. Os gregos não repugnavam ao evocar as cenas mais atrozes... Os heróis trabalhavam como açougueiros. A mitologia, a poesia épica, a tragédia estão cheias de sangue. Mas a arte é comparável a essa camada límpida e cristalina, através da qual eu via essas coisas atrozes: ela nos lança olhares que podem considerar tudo."

Monday, September 28, 2009

Pauline R. Yu - Teorias Poéticas Chinesas e Simbolistas

Quem lê poesia ocidental moderna está, provavelmente, familiarizado com os suportes teóricos dessa poesia: os escritos críticos dos poetas-críticos simbolistas e pós-simbolistas. Mas esses mesmos leitores, muitas vezes, ignoram que essas noções dos séculos XIX e XX tenham aparecido num contexto histórico e cultural radicalmente diferente, sustentadas por uma tradição de críticos literários chineses que James Liu chamou “metafísicos”. Esse desconhecimento, por parte dos leitores ocidentais, se deve ao fato de que, antes do livro de Liu ("Chinese theories of literature", Chicago, 1975), nenhum outro estudo importante, na área da poética chinesa, tenha aparecido, em Inglês. Embora Liu sugira, em muitos pontos de sua obra, a existência de semelhanças entre as poéticas chinesa e ocidental, sua maior preocupação é delinear as várias linhas de força que determinaram a literatura chinesa. Neste ensaio, procurarei focar as teorias criticas chinesas que guardam as maiores semelhanças com a nossa moderna tradição poética (aquelas, da escola "metafísica"), na esperança de que a comparação seja, não apenas mutuamente iluminadora, mas que também sugira a possibilidade de uma poética comparativa. Darei uma breve introdução às teorias chinesas, e examinarei, em seguida, as várias áreas de comparação e contraste.

As teorias metafísicas chinesas começam com a noção de que a literatura (ou melhor, a poesia) é manifestação do Tao, o principio do Universo, imanente na totalidade de todos os seres. É importante lembrar que esse conceito de um acordo fundamental entre a literatura e o universo mora no coração de todas as teorias chinesas – confucionistas e taoístas -, mas as idéias mais características dos críticos metafísicos derivam da obra atribuída ao filosofo taoísta Chuang-tzu (369-286 a.C.), e intitulada com seu nome. Concordo com Liu, para quem não havia exagero algum em dizer que o "Chuang Tzu" influenciou a sensibilidade artística chinesa mais profundamente do que qualquer outro livro.” Isso é verdade, apesar da evidente despreocupação, e mesmo desprezo, pela literatura - um ponto que retomarei, mais tarde.

Dispersos nas numerosas anedotas do "Chuang-tzu", estão os conselhos do filósofo a respeito da melhor maneira de se estar no mundo: deve-se seguir o curso das coisas e não se engajar em esforços propositados, nem em intelecções, mas esquecer o próprio ego no Tao:

“O que tens a fazer é permanecer em inação, e tudo se transformará por si só. Tua forma, teu corpo, tua audição, tua visão, quebre-os e lance-os fora. Esquece que és uma coisa entre outras, e poderás te juntar, em grande união, ao profundo e ilimitado... Mas, se tentares saber o que é esse profundo e ilimitado, então terás partido dele. Não perguntes qual é o nome dele, não tentes ver a sua forma. Tudo viverá naturalmente e por si só” (apud WATSON, 1970, p. 122)

Nesse estado de completude, não se faz mais distinções entre o ego e o universo. “O Céu e a terra nasceram junto comigo, e toda a Criação é una comigo” (idem, ibidem, p. 43). Percebendo a relatividade de tudo, não se discrimina mais a vida da morte, nem se distinguem mais a miriade de coisas:

“O sábio abraça tudo. Homens comuns discriminam as coisas, e apresentam aos outros as suas discriminações. Então eu digo que aqueles que discriminam falham em ver... Se se olha as coisas do ponto de vista de suas diferenças, então há raiva e rancor. Mas se as olhamos em suas semelhanças, então a Criação toda nos aparece como uma coisa só”. (idem, ibidem, p. 44 e 69).

Chuang-tzu rejeita os modos perceptual e conceitual de conhecimento, pois eles são, não apenas incompletos, mas necessariamente implicam uma separação entre o eu e o objeto, o conhecedor e o conhecido. Ele defende, ao invés disso, um tipo de cognição intuitiva, escutando com o “espírito" vazio: “Não escute com o ouvido, mas com a mente; melhor ainda, não escute com a mente, mas com o espírito. O ouvido pára a ouvir, a mente pára a comparar coisas e conceitos, mas o espírito é vazio e recebe todas as coisas. Só o Tao will gather onde há vazio, e por vazio se entende “abstinência da mente” (LIU, 1975, p. 31). Por várias vezes, Chuang-tzu compara esse vazio, ou ausência de “eu” diferenciador, à placidez de um espelho.

Apesar de essas imagens enfatizarem a submergência do eu no mundo, Chuang-tzu não nega que o primeiro possa influenciar o segundo, uma vez que a relação é mutua: “A mente do sábio repousa, e é como se submetesse todas as coisas – é o mesmo que dizer que o seu vazio e tranqüilidade ultrapassam o Céu e a terra, e penetram todas as coisas”. (apud WATSON, 1970, p. 144). Chuang-tzu também não diz que esse espelhar-se espontâneo e passivo possa ser atingido sem esforço. Pelo contrário, são muitas as suas anedotas sobre artesãos cuja habilidade não pôde ser levada à perfeição sem a prática e concentração prolongada; só assim eles podem agir com facilidade aparentemente inconsciente.

Embora Chuang-tzu não discuta propriamente a poesia, noções como “união mística com o Tao”, “cognição intuitiva” e “identificação impessoal com as coisas”, “percepção da relatividade e do fluxo”, e “recusa a fazer distinções”, todas se provaram férteis para os críticos literários posteriores. Mais do que isso, seu método de apresentação, com a predominância de parábolas intuitivas, enigmáticas, ao invés do discurso lógico, e a abundancia de non-sequiturs, jogos de palavras, paradoxos e linguagem aparentemente sem sentido, pode muito bem ter-lhes sugerido um modelo, tanto em forma quanto em conteúdo. Ao discutir as dificuldades em se traduzir o livro, Burton WATSON afirma: “Chuang-tzu, embora escreva em prosa, usa as palavras como um poeta, particularmente nas líricas descrições do Caminho, ou do Sábio taoista, onde o significado freqüentemente toma o segundo lugar, para o som e a força emotiva. No sentido mais amplo do termo, sua obra é, de fato, um dos maiores poemas da China antiga” (1970, p. 19). De fato, um grande problema, ao lidarmos com a critica literária chinesa como um todo, é a tendencia de muitos escritores a usar “uma linguagem altamente poética para expressar não apenas conceitos intelectuais como percepções intuitivas, que, por sua própria natureza, desafiam definições claras” (LIU, 1975, p. 6). E, como veremos, o mesmo vale para os poetas-criticos simbolistas e pós-simbolistas. Eles não apenas envolvem suas discussões teóricas em uma linguagem elíptica, metafórica e densa, mas também fazem a sua poesia falar “metapoeticamente” de si mesma.

O poeta-crítico Ssu-k´ung T´u (837-908), do final da dinastia T´ang, foi o primeiro a aplicar, exclusivamente à poesia, a idéia de uma união perfeita com o Tao. Em sua série de poemas, intitulada “Vinte e quatro estados poéticos”, ele emprega um tipo tetrassílabo de verso e uma linguagem imagética, não-discursiva, altamente elíptica, para tratar de vários estilos, ou humores, poéticos. Podemos interpretar a obra como um compêndio de conselhos ao "poeta", sobre "como" escrever, ou podemos vê-la como o retrato de um poeta, ou poema, ideais, mas, cada poema da seqüência pode ser visto, também, como a descrição indireta de si mesmo. Unificar o "todo" faz parte de um conceito de poesia como manifestação da identificação do escritor com o principio cósmico, ou Tao. De passagem, Ssu-k´ung T´u, num estado de pureza mental que afasta as distinções lógicas e mundanas, a busca propositada e a coerção, vê o poeta como alguém que apreende intuitivamente a essência dos fenômenos naturais, identificando-se e fluindo com o Tao que os informa. Essa "fusão" permite ao poeta transcender os limites de sua percepção sensorial, dotando-o de um poder criativo correspondente. No início do décimo poema (“Espontaneidade”), temos a apresentação desse processo:

"Inclina-te: lá está;
não procures em toda parte.
Movendo-se com o Tao,
a Primavera se cria num estalar de dedos.”

Reminiscentes de Chuang-tzu, os dois primeiros versos advertem a respeito do movimento "forçado", ou teleológico. Esse aviso aparece, freqüentemente, em todo o grupo de poemas. Ao seguir o "Tao", o poeta pode criar algo que possua uma natural vitalidade. Mas Ssu-k´ung T´u não concebe a poesia como simples espelhamento, passivo, do Universo. Ao unir-se com o principio subjacente ao Universo, o poeta não deve procurar extinguir seus pensamentos e sentimentos; ele deve, sim, tentar integrá-los aos objetos externos. Além disso, ao longo dos “Vinte e quatro estados poéticos”, Ssu-k´ung T´u reconhece a importância crucial da deliberação cuidadosa e da seleção, no ato de escrever, e nos dá vários exemplos disso.

Ssu-k´ung T´u, portanto, não defende uma representação simplesmente mimética dos fenômenos. Em seu primeiro poema (“Grandeza”), depois de descrever o revigorante poder de união com o Tao, que permite ao poeta evocar a miríade de fenômenos no ilimitado reino da imaginação, escreve ele:

“Atravesse as aparências externas
e alcance o Centro do círculo.
Tome-o, sem coerção,
e ele virá infinitamente...”

Aqui, sugere-se que o sucesso da imagem poética envolve "transcendência" – o "ultrapassar os limites da descrição externa", ou o "alcançar o Centro do circulo”. Uma imagem poética que se faça "além" de uma precisão forçada evocará um significado ilimitado, indeterminado. Em seu vigésimo poema (“Apresentação”), Ssu-k´ung T´u formula esse conceito de "imagem", e nos dá alguns exemplos:

“Adquira-se, apenas, a simplicidade espiritual
e logo retornará a pura verdade,
como perseguindo sombras n´água,
ou descrevendo as glórias da Primavera.
A mutações dos ventos e das nuvens,
a vivacidades das flores e das ervas,
as grandes ondas rolando nos oceanos,
os precipícios despenhadeiros nas montanhas -
tudo isso nos lembra o grande "Tao",
unido, misteriosamente, até mesmo à poeira!
Deixe-se a substância, para alcançar a "Imagem",
e que ela se aproxime do poeta..."

Embora o titulo, dissilábico, seja, comumente, traduzido como “Descrição”, escolhi evitar essa palavra, devido à sua implicação semântica de “detalhe externo” - precisamente, o oposto do que se trata, no caso. O poema afirma, de início, que uma "pureza interna" é necessária, caso o "poeta" queira apreender "intuitivamente" o "espírito" que mora além dos fenômenos. Os dois "símiles" seguintes podem se referir tanto à "natureza" do seu encontro – intangível e miraculoso –, como aos seus possíveis efeitos. Nas quatro linhas seguintes, Ssu-k´ung T´u nos dá exemplos de "essências" de certos fenômenos, ou seja: qualidades "abstratas", que transcendem detalhes concretos. Quando o poeta apreende e se identifica com o "Tao" imanente nas imagens concretas, ele pode manifestar essa união por meio de uma imagem que carrega um significado ilimitado.

Ssu-k´ung T´u amplifica essa formulação, numa carta a certo Wang Chi, como segue: “Dizia Tai Jung-chou: As "cenas" de um poeta, tais como “Em Lan-t´ien, quando o sol é quente, de fino jade a fumaça sobe”, podem ser vistas de longe, mas jamais podem ser postas à frente dos olhos. Afinal, uma "imagem além da imagem", uma "cena além da cena" – pode, isso, ser facilmente verbalizado?”. Aqui, Ssu-k´ung T´u atinge uma verdade crucial, no que tange ao modo como as obras literárias são dadas à nossa percepção. Nenhuma abundância de detalhes pode, de fato, permitir-nos a apreensão dos objetos representados como "sensórios", pois eles são apenas "quase-reais" – tratam-se de "palavras", não de "coisas". Como disse Roman INGARDEN, em "The Literary Work of Art" (Evanston, Illinois, 1973): “Os aspectos impostos ao leitor nunca podem ser atualizados como aspectos genuinamente perceptuais, mas apenas dentro de uma modificação imaginacional, mesmo que, no próprio trabalho, sejam determinadas como perceptuais.” (p. 269). Essa “modificação imaginacional” corresponde ao “olhar de longe”, que deve substituir a cena "real", diante de nossos olhos. Isso é o que deve ser valorizado, pelo poeta, em suas imagens: a atualização da cena, pelo leitor, em sua própria imaginação, que vai, sempre, além daquela descrita no poema (que, por sua vez, transcende qualquer cena real...).

Em outra carta, discutindo poesia, Ssu-k´ung T´u propõe a mesma idéia, mas em termos diferentes. Escreve ele, que o “gosto”, o “sabor", ou "efeito imediato" da poesia pode ir além do mero “azedo” ou “salgado”, e, do mesmo modo, pode-se transcender os limites "físicos" das palavras. Por meio de uma linguagem altamente sugestiva, o poeta pode explorar a natureza simbólica da própria linguagem, de modo a permitir um “significado além do sabor”. Essa noção de uma poesia sugestiva, alusiva e evocativa será crucial, tanto para os críticos chineses posteriores, quanto para os poetas simbolistas ocidentais.

Wednesday, September 23, 2009

"A volta dos andorinhas"

Foi no primeiro dia
de Primavera. Um galhinho denunciou
a feitura da casa. Inquilinos pretinhos,
o peito branco, voltados de pradarias,
com notícias de norte, vieram pousar,
palrar ao telhado sob onde durmo:
sorte

Garça 69

As frutas faltaram
e o telhado desabou,
tudo abandonado,
até as vitrinas de sol
se iluminaram,
mas sem vidros,
sem sinas.

As pessoas andam, é seu desejo andar,
ficam paradas à espreita
de um lugar pra descansar:
porta estreita, quem há de tentar,
a porta estreita, estreitar.

A lua desfeita, em cinzéis de ar,
como num sonho esbelto
o mar, sempre lavrado,
o couro do mar, desatinado.

As frutas novas, laranjas e abóboras,
mês das bruxas, de todas as frutas,
benção de pão, carregam trufas
de sal e algodão.
as nuvens bruxas.

A magia é haver pão.

Mais uma curva,
estar na mão,
descansar na lei,
ser o sifão
do Rei,

para transportar o Amor,
é preciso pagar o flerte...
ainda que Amor esteja ao centro
de toda Sorte.
Mundo dos fenômenos, tão contrário à Morte.
Imitação da Vida,

E surgem fulgurações de cidade,
luzes cambiantes, lisas,
por toda a extensão da descida,
uma, duas, três vias
de acesso ao Ilimitado.

Onde vamos de relance,
como namorados.

Onde detemos o Instante,
esposados.

Magia de haver sonho,
Visitado.

Há uma crianças que eu não falei.
Seu nome é desavisado.
Cresce na encosta
o seu vislumbre assoprado,
de camisa e calças
curtas, e chinelo emborrachado,
a caminhar nas curvas,
ao barranco esverdeado
aos cabelos, e a pele dura,
verá ao lado a extensão do nevoeiro
sobre a penha, e vagaroso,
muito vagaroso de não ter motores,
irá, co´s pais e tios, pelo Caminho,
sem sentir o não cheiro,
sem guardar da chuva os pés,
sem do frio guardar-se,
e ver as gotas n´árvore.
De experiências vário, filho do Mundo
cuidado. À noite, regalar-se de sopa,
e pleno de Mundo, dormir.
Esse é o personagem que eu não fui,
ao carro dirigir, desdobramento
do Eu, o negativo apositivado.
Fui, para ele, um Instante.
E nada mais.

Quereis que eu lamento?
Por quê?
Se de outros ais
são feitos os outros.

Eu só dimiro
possa haver vagareza
possa haver pobreza,
possa haver beleza
e união.

Garça, 69,
muito longe de casa.

"Sortes"

*

Eu ouvi os bichos
no dia "um" de Primavera.
E era um renascer do outro dia
quando isso aconteceu.
O renascer dos bichos.

O ar domesticado.
O frio do fim do Inverno.

Fulgurações de uma vila,
rosa desfeita: nevoeiro
e luz.

*

Ainda que do Bem
o amor venha
vem sem guardas
a guiar os passos
ao cadafalso
onde se penduram vinhas
os palafitas de bronze,
os cobres e os vinténs
desfeitos como púrpuras vesanias
sobre o alçapão

Se morrerá cedo
ainda assim é Bem
que de Deus vem.

Ora seja o mais amado,
o abraço
e não de dores estatelado
já à saída a dor
antecipada.

Seja presente, sempre.
O Amor dado
Seja sempre este, o fado.

*

Pela campina
o alarido
vem de noite
a treva de um estampido
A noite cala
mais um gemido.
Os câes ladram,
o frio chega,
a noite esfria.
Clarão de meteoros,
o cheiro a maravilha.

Saturday, September 19, 2009

ROUPA DE MULHER

mais um som.
arco de borracha
oca,
ou plástico,
fio de nylon,
um solo de pipa moderna.

A adormecer carneiros,
e ovelhas.
Seres fantásticos e mitológicos.
Orfeu renovado.

Pela simplicidade de se abismar de Deus
e chorar sazonado.

Divina roupa,
Deus a quer,
sobre os telhados, chuva.
Roupa de mulher.

olhar as frutas.
Estar a ver a chuva descer.
Estar a fazer versos.
Há um lado da cabeça
com visão quão.
Vê-se a chuva caindo
vendo versos,
vendo brilhos enquanto a folha branca.

Porque há os lados
dos olhos.

Vendo o que chega,
o que diz.

"O cheiro forte da terra"

É como enfronhar o nariz
até o talo, e muito mais,
cara adentro, nessa terra,
e sorver o sumo até o último,
o alento arenoso e fresco e
cheiroso, o cheiro de chuva
acordando os perfumes da terra.

Assim foi o amor.
O sempre passado, sempre a chegar.

Monday, July 27, 2009

CHUVA NA FACE

É o mundo, diluindo,
disseminando.
O parapeito molhado,
e os cotovelos.
A ave que encontrou
um cacho de gotas.
Pequeno 11 de setembro.

DREAM ON

A névoa na cidade,
há quanto tempo a névoa...
Os cordões de ouro,
o tremeluzido das velas,
os fachos de luz,
na névoa.
Os gazes da múmia,
desvelada,
soltando amarras.
os vagalumes na escuridão
(dream on)
A pardacenta claridade
A soturnidade dos cavalos,
escavados na rocha.
Os rios e as matas,
casernas de insetos.
O dia amanhece, então,
antes do tempo
(agora, à noite, é dia).
dream on.
e não há vento.

Wednesday, March 04, 2009

Poesia - discurso de Estocolmo - Saint-John Perse (1960)

"Aceitei para a poesia a homenagem que aqui lhe é prestada, e que me apresso a lhe restituir.

Poucas vezes a poesia ocupa um lugar de honra. É que parece vai aumentando a dissociação entre a obra poética e a atividade de uma sociedade sujeita às servidões materiais. Distância aceita pelo poeta, mas não procurada por ele, e que seria a mesma para o sábio, não fossem as aplicações práticas da ciência.

Mas, do sábio, como do poeta, é o pensamento desinteressado que aqui se pretende honrar. Que, ao menos, aqui já não sejam considerados como irmãos inimigos. Porquanto é a mesma a interrogação que eles fazem sobre um mesmo abismo, e só os modos de investigação é que diferem.

Quando se mede o drama da ciência moderna, que até no absoluto matemático descobre os seus limites racionais; quando se vê, na física, duas grandes doutrinas-mestras formularem uma um princípio geral de relatividade e outra um princípio quântico de incerteza e de indeterminismo que limitaria para sempre a própria exatidão das medidas físicas; quando se ouviu o maior inovador científico deste século, iniciador da cosmologia moderna e responsável pela mais vasta síntese intelectual em termos de equações, invocar a intuição em socorro da razão e proclamar que "a imaginação é o verdadeiro terreno de germinação científica", chegando mesmo até a reclamar para o sábio o benefício de uma verdadeira "visão artística" -, não se está no direito de considerar o instrumento poético tão legítimo como o instrumento lógico?

Na realidade, toda criação do espírito é principalmente "poética" no sentido próprio do termo; e, na equivalência das formas sensíveis e espirituais, uma mesma função se exerce, inicialmente, para o empreendimento do sábio e para o do poeta. Entre o pensamento discursivo e a elipse poética, quem vai mais longe e de mais longe? E, dessa noite original em que tateiam dois cegos de nascença, um aparelhado com a ferramenta científica e o outro assistido pelas únicas fulgurações da intuição, quem é que mais cedo e mais cheio de breve fosforescência se exalça? Não importa a resposta. O mistério é comum. E a grande aventura do espírito poético não cede em coisa alguma às aberturas dramáticas da ciência moderna. Podem alguns astrônomos ter-se perturbado ao extremo com uma teoria do universo em expansão; não há menos expansão no infinito moral do homem - esse universo. Por mais que a ciência recue as suas fronteiras, e em todo o arco estendido dessas fronteiras, ainda se ouvirá correr a matilha caçadora do poeta. Porque, se a poesia não é, como se disse, o "real absoluto", é certamente a mais próxima cobiça e a mais próxima apreensão desse real, nesse limite extremo de cumplicidade em que, no poema, o real parece informar-se a si mesmo.

Pelo pensamento analógico e simbólico, pela iluminação remota da imagem mediadora e de associações estranhas, enfim, pela graça de uma linguagem em que se transmite o próprio movimento do Ser, o poeta investe-se de uma super-realidade que não pode ser a da ciência. Haverá no homem dialética mais empolgante e que mais o comprometa? Quando os próprios filósofos desertam o limiar da metafísica, ao poeta sucede reintroduzir aí o metafísico; e então a poesia, e não a filosofia, é que se revela a verdadeira "filha da interrogação", consoante a expressão do filósofo antigo a quem ela foi mais suspeita.

Porém, mais do que modo de conhecimento, a poesia é primeiramente modo de vida - e de vida integral. O poeta existia no homem das cavernas, existirá no homem das idades atômicas, porque é parte irredutível do homem. Da exigência poética, exigência espiritual, nasceram as próprias religiões, e pela graça poética a centelha do divino vive para sempre no sílex humano. Quando as mitologias se esboroam, é na poesia que acha refúgio o divino; talvez mesmo o seu "relais". E até na ordem social e no imediato humano, quando as Portadoras de pão do antigo cortejo cedem o passo às Portadoras de archotes, é ainda na imaginação poética que se acende a alta paixão dos povos em busca da claridade.

Ufania do homem em marcha por sob a sua carga de eternidade! Ufania do homem em marcha debaixo do seu fardo de humanidade, quando para ele se abre um humanismo novo, de universalidade real e de integralidade psíquica... Fiel ao seu ofício, que consiste no aprofundamento do mistério do homem, a poesia moderna arrosta uma empresa cujo prosseguimento interessa a plena integração do homem. Não há nada de pítico em tal poesia. nada, tampouco, de puramente estético. Ela não é arte de embalsamador ou de decorador. Não cria pérolas cultivadas, nem trafica simulacros ou emblemas, e não poderia contentar-se com nenhuma festa musical. A si alia, em seus caminhos, a beleza, aliança suprema, porém não faz dela seu fim nem seu pábulo único. Recusando-se a dissociar da vida a arte, e do amor o conhecimento, ela é ação, é paixão, é poder e novação sempre, que desloca os limites. O amor é seu lar, a insubmissão sua lei, e seu lugar está em toda parte, na antecipação. Ela jamais se quer ausência ou recusa.

Nada espera, no entanto, das vantagens do século. Presa ao seu próprio destino e livre de toda ideologia, ela se conhece igual à própria vida, que por si mesma nada tem a justificar. E é com um mesmo amplexo, como com uma só grande estrofe viva, que ela abraça, no presente, todo o passado e todo o futuro, o humano, como o sobre-humano, e todo o espaço planetário com o espaço universal. A obscuridade que lhe exprobam não se prende à sua natureza própria, que é esclarecer, e sim à própria noite que ela explora e que a ela cabe explorar: a da própria alma e do mistério em que o ser-humano imerge. A sua expressão sempre vedou a si mesma o obscuro, e essa expressão não é menos exigente do que a da ciência.

Assim, por sua adesão total ao que é, o poeta mantém para nós ligação com a permanência e com a unidade do Ser. E sua lição é de otimismo. Uma mesma lei de harmonia rege para ele o inteiro mundo das coisas. Nada pode acontecer que, por natureza, exceda a medida do homem. Os piores cataclismos da história não passam de ritmos sazonais numa mais vasto ciclo de encadeamentos e de renovações. E as Fúrias que atravessam o cenário, tocha erguida, iluminam apenas um instante do longuíssimo tema em curso. As civilizações maturescentes não morrem de modo algum com os estertores de um outono; mudam apenas. Só a inércia é ameaçadora. Poeta é aquele que rompe para nós a acostumança.

E assim é que, mau grado seu, o poeta se acha também ligado ao acontecimento histórico. E, do drama de seu tempo, nada lhe é estranho. Que a todos diga ele claramente o gosto de viver esse tempo forte! Porquanto grande e nova é a hora em que se nasce de novo! E a quem, então, haveríamos de ceder a honra de nosso tempo?...

"Não temas, diz a História, levantando um dia a sua máscara de violência; e, com a mão levantada, faz aquele gesto conciliatório da Divindade asiática no mais forte da sua dança destruidora, "não temas nem duvides - porque a dúvida é estéril e o temor é servil. Antes, escuta essa batida ritmada que minha mão erguida imprime, inovadora, na grande frase humana, em criação permanente. Não é verdade que a vida possa renegar-se a si mesma. Não há nada vivo que do nada proceda, nem que pelo nada se apaixone. Porém, tampouco, nada conserva forma ou medida sob o incessante afluxo do Ser. A tragédia não está na própria metamorfose. O verdadeiro drama do século está na distância, que se deixa crescer, entre o homem temporal e o homem intemporal. Será que o homem aclarado sobre uma vertente vai obscurecer-se sobre a outra? E o seu amadurecimento forçado, numa comunidade sem comunhão, não passará de falsa maturidade?... "

Ao poeta indiviso cabe atestar entre nós a dupla vocação do homem. E é isto alçar perante o espírito um espelho mais sensível às suas potencialidades espirituais. É evocar no próprio século uma condição humana mais digna do homem original. É, enfim, associar mais ousadamente a alma coletiva à circulação da energia espiritual no mundo... Face à energia nuclear, a lâmpada de argila do poeta bastará a seu propósito? Basta, se de argila se lembrar o homem.

E é suficiente, para o poeta, ser a má consciência do seu tempo.


(In: PERSE, Saint-John. "Poemas". Tradução de Bruno Palma. Rio de Janeiro : Grifo, 1971)