Tudo aconteceu em outubro de 2003, quando o Cachorro do Vizinho invadiu a propriedade e matou doze frangos e galinhas, num massacre que ficou conhecido como O Abominável Caso do Assassinato de Brahma, referência ao galo, que veio a ser vítima do monstro, perecendo valentemente no campo onde suas esposas e filhos jaziam. Foi o primeiro a avistar o Cachorro do Vizinho, e deve ter sido o terceiro ou quinto a morrer, porque ficou no pescoço do bicho, bicando e batendo as asas. Mas o animal era raivoso (não de doença, mas de maldade insana mesmo), e deve ter matado rapidamente o galináceo que lhe teimava em espicaçar com asas e bico. Levou a bocarra ao lado, e sacudiu com os dentes o galo Brahma, até ele ser deixado sem vida no campo gramado, em meio às penas e ao sangue do seu clã. Houve sobreviventes desse massacre, e um dos sobreviventes veio a ser herdeiro direto de Brahma, com o direito de ter exatamente a mesma aparência. Foi considerado caso de reencarnação, debatido no Espiritismo com argumentos contrários e gerando discussões acaloradas. Mas o caso é que Brahminha – como os proprietários gentilmente o chamavam, para distingui-lo do antigo Brahma, mas que gerava nele um indesejado sentimento de inferioridade, mais indesejado ainda pelo perigo de voltar uma ameaça como a antiga – cresceu e deu prosseguimento ao clã da Chácara, povoando-a, num caso facilmente comprovável de reencarnação do mesmo Espírito. Pois foi nessas condições que um outro perigo ameaçou a sobrevivência do clã, e, dessa vez, Brahminha foi orar.
“Meu Deus, livrai-me da morte. Nossa Senhora e Jesus Cristo, protegei-me com as armas dos vossos santos, e dai-me poder de suportar a provação, e que tudo se encaminhe segundo os desígnios de nosso Criador.”
Assim ele rezou, junto à torneira d´água, no quintal. Olhava a pocinha d´água, formada pelo uso da torneira, e encontrava seu rosto nessa água, sem perceber que o reflexo ondulava num campo argiloso, onde despontavam uns matinhos, pequeninos, como uma miríade de estrelas verdes. Continuava ciscando e vendo a si mesmo. Terminada a oração, foi ter com os seus. E soube a verdade.

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