Friday, December 24, 2010
SHELTER FROM THE STORM
Wednesday, December 15, 2010
CAVALO DE CERA
Era uma vela roxa, bordeaux, quase marrom, mas roxa. Dificuldade de definir cores. Cor de vinho, digamos. Não era vela de feitiço, mas decoração à la duendes. Foi derretendo, e, qual surpresa!, ao fim do dia estava ali: um cavalo, de cera. Moldado, sei lá como, sei lá por quem, sei lá que ninguém. Estava ali, um cavalo. E, brincando com ele, lembrei-me.
Da Ordem Cavaleiresca, criada por um velhinho. O velhinho era um velhinho: brincava. Criou várias ordens, mas: a Ordem de Cavalaria foi a mais séria. Congregou muitas crianças. As meninas jamais viram pessoas tão formosas. Jamais fizeram qualquer esforço, com eles por perto; e, se mangavam deles, ai!, lá vinha um desentronchar de entranhas, por meio das palavras. Aí, elas choravam. Sentiam-se algo que pudesse ficar debaixo do pano velho da soleira da porta, sem serem percebidas. De esmerada educação, os mocinhos choraram muito, quando o velhinho partiu. Partiu de cota e elmo, e a longa espada. Cavaleiros dispersos, onde estarão?
Saturday, December 11, 2010
No Além
– Jura?! Você não assistiu nem um show do Chopin no Conservatório de Paris??!
– Juro...
– Ah!... Então você não viveu!...
PANBOX
Abri a caixa de correio, e havia apenas um papelzinho: “Há uma esperança”. Era propaganda de igreja, mas estava lá, na escuridão da caixa de ferro, empoeirando, e ainda tão limpinha, tão novinha. Nem mexi. Apenas fiquei com a frase na cabeça, e tranquei-a de novo, na escuridão da caixa de ferro. E depois, o domingo farfalhou as sibipirunas, todas secando, mas ainda verdes, verdinhas de tarde dourada - é inverno.
Com as mãos ainda enferrujadas de água e de frio, fui pela escada acima, e notei que, realmente, havia uma esperança.
À medida que as horas se dilatavam em minutos, e estes se dilatavam logo em segundinhos, fui percebendo que a esperança sempre esteve presente na caixa empoeirada de ferro, que é onde menos se espera.
E ali ela está, protegida. Mas, se eu procurá-la de novo, é bem capaz que tenha sumido para outro lugar, talvez nas calçadas do jardim de baixo, ela vai para onde a não querem.BRAHMA
Tudo aconteceu em outubro de 2003, quando o Cachorro do Vizinho invadiu a propriedade e matou doze frangos e galinhas, num massacre que ficou conhecido como O Abominável Caso do Assassinato de Brahma, referência ao galo, que veio a ser vítima do monstro, perecendo valentemente no campo onde suas esposas e filhos jaziam. Foi o primeiro a avistar o Cachorro do Vizinho, e deve ter sido o terceiro ou quinto a morrer, porque ficou no pescoço do bicho, bicando e batendo as asas. Mas o animal era raivoso (não de doença, mas de maldade insana mesmo), e deve ter matado rapidamente o galináceo que lhe teimava em espicaçar com asas e bico. Levou a bocarra ao lado, e sacudiu com os dentes o galo Brahma, até ele ser deixado sem vida no campo gramado, em meio às penas e ao sangue do seu clã. Houve sobreviventes desse massacre, e um dos sobreviventes veio a ser herdeiro direto de Brahma, com o direito de ter exatamente a mesma aparência. Foi considerado caso de reencarnação, debatido no Espiritismo com argumentos contrários e gerando discussões acaloradas. Mas o caso é que Brahminha – como os proprietários gentilmente o chamavam, para distingui-lo do antigo Brahma, mas que gerava nele um indesejado sentimento de inferioridade, mais indesejado ainda pelo perigo de voltar uma ameaça como a antiga – cresceu e deu prosseguimento ao clã da Chácara, povoando-a, num caso facilmente comprovável de reencarnação do mesmo Espírito. Pois foi nessas condições que um outro perigo ameaçou a sobrevivência do clã, e, dessa vez, Brahminha foi orar.
“Meu Deus, livrai-me da morte. Nossa Senhora e Jesus Cristo, protegei-me com as armas dos vossos santos, e dai-me poder de suportar a provação, e que tudo se encaminhe segundo os desígnios de nosso Criador.”
Assim ele rezou, junto à torneira d´água, no quintal. Olhava a pocinha d´água, formada pelo uso da torneira, e encontrava seu rosto nessa água, sem perceber que o reflexo ondulava num campo argiloso, onde despontavam uns matinhos, pequeninos, como uma miríade de estrelas verdes. Continuava ciscando e vendo a si mesmo. Terminada a oração, foi ter com os seus. E soube a verdade.
A CONTINUAÇÃO DO GATO PRETO
Tal como nos foi contada por um velho, na mesa do bar, citando um obscuro Tratado geral do bilhar, de autoria desconhecida, mas atribuído a um certo Valdecyr Cosme dos Santos, lenda do jogo.
Antes, deixe-me fazer o retrospecto da história do Gato Preto, tal como foi contada por Edgar Allan Poe. A história é a seguinte: um sujeito gostava muito de animais; era apaixonado por eles; mas, um dia, ele recolhe do bar um animal preto, um gato que ali passava, e que parecia pedir: “Me leve pra casa!”
Pois bem, esse homem recolhe o gato e o leva pra casa, para se juntar à turma de coelhos, tartarugas, cachorros, passarinhos. E tudo parece normal, por uns dois dias.
Aos poucos, o homem vai se sentindo diferente. Azedo; amargo; nojento; e tudo sem qualquer causa aparente. Começa a maltratar seus bichinhos. Faz judiação. E até maltrata a esposa, que não entende o que está acontecendo, nem entende por quê ele começou a beber.
O gato preto, porém, era seu objeto preferido de fúria. Quando a esposa faleceu, vítima do machado do marido, faleceu porque ia defender o bichinho, e foi emparedada pelo homem, com cimento, na parede do porão.
Julgando-se esperto, o sujeito leva a polícia até o porão, um dia, para demonstrar que ninguém precisa mesmo suspeitar de si. Mas a polícia, assim que está indo embora, ouve um miado vindo da parede. O homem começa a suar frio e a tremer. E a polícia, cavando a parede, descobre um gato, vivo, miando sobre a cabeça de um cadáver de mulher.
História assombrosa. Mais assombrosa ainda, porque é o próprio delinqüente quem nos conta os detalhes de sua loucura, e faz, daquele gato preto, um símbolo do mal, que inocentemente levamos conosco pra casa, mas que tem os seus efeitos desastrosos.
Bem, a história terminaria aqui; entretanto, o Tratado geral do bilhar diz o seguinte:
TRATADO GERAL DO BILHAR
Capítulo III, “A bola oito”
Diz a lenda que, depois da prisão do seu dono, e depois do triste enterro da bondade, sacrificada como um boi de sacrifício aos demônios infernais de seu marido, o Gato Preto foi recolhido à Delegacia, onde recebeu a atenção das senhoras da Associação Protetora e comoveu as pessoas por meio de inocentes manchetes nos jornais, onde estampavam a foto do bichinho por meio de palavras doces. Todos estavam mancomunados sem saberem; até o Prefeito veio demagogar sua presença ao lado das elogiadas senhoras da sociedade. E ali estava o bichinho. Preto. Poucas pessoas percebiam. Até que um dia, um homem percebeu que o seu vício no jogo de sinuca tinha a ver com a bola preta. A única preta, no vasto gramado de bolas coloridas. É que ela lembra... Negramente, o Infinito, rodando, ou estancando-se... Eu sei, tudo isso é incoerente. Sim, eu sei, são as superstições... Mas há um olho para ver o mal. E é triste de ver... É nessas horas que o gato preto se torna bom... Sim, eu sei...
O fato é que o Gato Preto continua em seu telhado calmo à lua; a bola preta rola pelo gramado livremente; e, em noites só de lua, a noite é estar dentro de uma grande bola preta, com uma certa nuvem branca.
Misterioso parágrafo, que nos foi contado exatamente, e com muita reverência, posteriormente, pelo Sr. Alcínoo Campobello, naquela noite de tempestade, que seguirei contando agora:
Íamos pela estrada, e discutíamos Goethe.
Zum sehen geboren
Zum schauen bestellt
Que o dicionário eletrônico traduziu tão lindamente para o Inglês:
To sees born
To looks ordered
Ah, é tão lindo, se colocado no contexto da contemplação! Como poderíamos traduzir para nossa língua? Talvez:
Para as vistas nascido
Para os olhares mandado
Discutíamos Goethe e outros poetas alemães, naquela noite em que meu amigo me acompanhava na obrigação de ir até uma cidade. A noite era tempestuosa, desde que saíramos de casa. Na estrada de asfalto, as nuvens se moviam pesadamente enquanto passávamos o mais rápido possível para escapar da chuva em pleno caminho, e falávamos dos poetas alemães como se tivesse surgido, o assunto, da própria noite. Não haveria nada mais adequado àquele momento, do que discutir justamente esses assuntos tempestuosos, furiosos, naturais. Combinava-se perfeitamente à atmosfera de tormenta.
Mas o fato é que a chuva nos pegou ao meio da estrada, e, sem ver um palmo à frente, tivemos de interromper o assunto e pegar o atalho que ia à cidade de X... Foi esse atalho que surgiu miraculosamente, quando a única opção seria levar o carro para a beira da estrada e desliga-lo até a visibilidade melhorar, o que teríamos de fazer, mesmo que a beira da estrada se descobrisse, depois, como um despenhadeiro. Graças a Deus, o trevo de X... surgiu e tomamos o caminho da cidadezinha, que estava encharcada, repleta de rios grossos correndo às calçadas e ao meio das ruas, mas que, ao menos, não oferecia o perigo que ainda há pouco corríamos.
Procuramos um lugar para ficar ao abrigo da chuva; um lugar onde pudéssemos andar livremente e fumar. E encontramos, depois de uma certa procura, um bar.
A porta estava aberta, escura, negra, e algumas formas denunciavam que havia pessoas ali. Ótimo, pensamos, vamos descer aqui.
Entramos no bar, levando um pouco da chuva nas costas, e esperamos a melhora.
Enquanto isso, acompanhávamos a conversa baixa de alguns homens. Fui ligar para casa, avisando que estava tudo bem, mas o telefone não funcionou, o telefone público. E tivemos de ficar, assim, à espera de que o blecaute, o apagão, se acendesse.
Muito tempo depois, subitamente, a luz acendeu. O que vimos, deixe-lhes contar, foi espantoso: estávamos num lugar como que transportados à década de 1930 ou 1940, no máximo 1950. Penduricalhos de peixes secos, que ainda pareciam vivos, piranhas do Mato Grosso, com a boquinha aberta, as serrinhas nos dentes, e outros espécimes que enfeitavam vários cantos do recinto. Hoje em dia, isso me lembra a igreja de Moby Dick: toda enfeitada de coisas de baleia. Os caçadores de nossos dias, desses dias brasileiros e antigamente bandeirantes, usam enfeitar-se com suas caçadas nos rios. Mas ainda havia outras coisas: uma estante, enorme, além do balcão, repleta de garrafas enfileiradas e antiqüíssimas, de aguardentes que meu avô devia beber, quando moço, com seus amigos, rótulos gastos e, em minha imaginação, a estante toda tinha enfeites de teia de aranha e pó, com pingentes e imagens de santinhos, santos, santões, vermelhinhos, azuis e brancos, sei lá, eu me lembro de ciscos de cor naquela exposição de antiguidades populares em tom pastel. Todo o bar, iluminado ainda por uma lâmpada da antigüidade pesqueira e lavradora, que ficava ali no teto, pendurada das vigas de madeira, todo o bar, dizia eu, era antigo, até às mesas e o chão. Seus habitantes ocasionais não eram menos trazidos do tempo: eram velhinhos que minha lembrança, hoje em dia, retrata como sendo os fundadores de nossa região. Mas havia de tudo. Todos eles envoltos em mistério.
O dono do bar era uma figura a que todos chamavam Cigano. Foi ele quem nos vendeu, do freezer de quando eu era criança e do século passado que era o balcão de madeira e vidro, uma cerveja nova e paçoquinhas, cortadas de um bloco inteiro e servidas em papel de padaria.
Explicou alguma coisa sobre o apagão, contou alguma piada, que meu amigo ouviu, enquanto eu ainda me espantava de estar na década de 1950, e nos vendeu duas fichas de sinuca, que fomos jogar nos fundos do bar, como antigamente, quando o jogo era proibido.
Lá nos fundos, as duas mesas ficavam numa varanda, que dava diretamente ao grande quintal de pomar e galinhas, e de onde podíamos ver o muro que dava para a rua, onde um poste de luz amarela acendeu. Por causa da luz do poste, víamos caírem as gotas lavradas de chuva, como de um diamante lapidado e finamente desbastado. O lugar era perfeito para jogar, para beber enquanto se jogava, e para fumar livremente enquanto se conversava, acrescentando ao fumo inalado aquele cheiro de terra molhada e desagradável. Logo, viemos ter companhia, depois de alguns lances e alguns copos de cerveja. Eram dois homens, dois velhos, nem velhos eram, eram quase velhos, ou eram velhos magrinhos e muito fortes, que entraram conversando e sentaram-se a conversar. Um deles, de bigode branco e rosto muito marrom, cabelinho branco aparecendo do chapéu, camisa arregaçada até o meio do braço, ficou olhando para nós, certa hora, em silêncio de quem vai falar, e mexia os dedos juntos das mãos, com os cotovelos apoiados ao joelho dobrado sobre a perna. Seu companheiro silenciou, sabendo que o outro ia falar, e o que ia falar. Soubemos disso, e esperamos. Até que ele falou a respeito do Tratado geral do bilhar, coisas que não vou contar aqui, para não alongar demais a história, e para não contar mais do que me é permitido. Além disso, o Tratado geral do bilhar, quase mitológico grimoire da sinuca, foi apenas a introdução de uma outra história, apenas o pretexto para se contar a terrível história do Lorde Papagaio. Terrível não sei se é, mas a curiosa, interessante, singular história do Lorde Papagaio.
Tem muito a ver com Edgar Allan Poe, autor já citado. Mas talvez tenha menos a ver com o Gato Preto, e muito mais a ver com O Corvo.
O Corvo, disse-me o velhinho, é aquela história do homem que fica viúvo e, algum tempo depois, numa noite escura de esquecimento, tenebrosa, funérea, fúnebre de nuvens e de lua, recebe a visita de um passarinho agourento, preto que nem carvão, que vem entrando pela janela que o outro abriu, achando que era só o vento que estava fazendo barulho, mas era o passarinho que estava tentando entrar. Bateu na porta, bateu na janela, e quando o homem abriu, tentando acreditar que era só o vento, o passarinho entrou e foi pousar lá no alto do quarto, em cima de uma imagem que ele tinha no quarto. Aí o passarinho ficou quieto, e o homem já sabia o que o passarinho tinha ido fazer lá, só que estava com medo e queria que o bicho fosse embora. A cada pergunta, a cada coisa que o homem perguntava, dizia o passarinho: “Nunca mais!”. Foi dizendo isso, até que o homem caiu em desespero; pra sempre o passarinho ficou lá, dizendo que nunca mais ele ia ver a amada de seu coração, e o homem ficou, assim, entregue à amargura de ser um sempre viúvo.
Coisa triste... Mas, agora, o senhor repare naquele outro passarinho ali.
E me apontou uma parede, ao canto esquerdo lá da porta da entrada do bar, onde ficava uma mesa e duas cadeiras.
Repare bem, disse-me ele, (e o outro, seu companheiro, se ajeitou na cadeira com espalhafato de quem se ajeita espantando o ar antigo para se preparar para um novo, de olhos baixos no chão), repare bem lá no alto, aquele desenhão de papagaio, está vendo?
E eu vi, um papagaio enorme, enorme não, muito grande, grande, de terninho marrom, com um cachimbinho na boca, aceso. Seus pés (!) estavam calçados com sapatinho chique, de couro, e um dos pés estava sobre uma bola de futebol. Sua pose era a de quem dominou a bola. As mãos (!) estavam nos bolsos do paletó. Seu sorriso era alegre como de um Zé Carioca posto num terninho à inglesa, com direito a coletinho branco e gravata preta, e tudo. Via-se ele de perfil, o sapatinho sobre a bola, as mãos nos bolsos do paletó, o olhar alegre, o cachimbo aceso, de pé, como um vencedor elegante.
Ora, identifiquei, na hora, quem era. Era o símbolo do Palmeiras, clube do coração de muitos aqui do Interior, principalmente dos descendentes de italianos, como devia ser o caso do Cigano. Esse símbolo, pintado como um afresco no interior dos bares, eu já tinha visto muito em minha vida. Lembrava-me o meu avô, de quando ele me levava aos bares de bocha, de pinga, de sinuca, de truco, e me comprava uma salsicha curtida em vinagre ou um pastel salgado, ou um doce colorido de geléia, e o domingo era claríssimo lá fora.
Repare melhor, disse o velho, sorrindo (o outro, seu companheiro, levantou os olhos, ficando na mesma posição, com as mãos juntas no meio dos joelhos das pernas estendidas).
Então nós vimos, conjuntamente, três furos de bala de revólver, bem no peito do papagaio.
Quem fez isso?
Sabe quem fez isso? Sabe por que se fez isso? Eu vou lhes contar
Então ele pigarreou de lado, e nos contou
A História do Lorde Papagaio
Estava um homem, certo dia, talvez um domingo de sol, antes do almoço, tomando sua pinga, sentado bem ali, sob o Lorde Papagaio, quando, depois de muito tempo sozinho, começou a se enervar. Quem estava meio longe podia ver muito bem que ele conversava e discutia com o passarinho pintado à parede. Depois de algum tempo é que foram notar que o caso era grave. Depois de muito tempo, na verdade, porque o homem era dado a ficar nervoso, quando bebia, e ficava nervoso contra os políticos, saía falando do time pelo meio da rua, falava de não sei quens; e não fazia mal a ninguém, só perdia o controle da língua. Mas, naquele dia, todos viram que o caso era sério, quando ele se levantou, e; não é mesmo Cigano?... Tô contando aqui pros menino aqui a história do Lorde Papagaio!... (é verdade, balançou seriamente a cabeça o Cigano). Então, o homem, juro por Deus, levantou, começou a berrar que “Você não sabe de nada!”, “Você é um mentiroso!”, “Já falei pra parar!”, e sacou do revórve, deu três tiro no Papagaio, e saiu correndo, destrambelhado e desesperado, pela rua. O sangue escorreu pela parede, fininho e arenoso, dos três buraquinhos na massa da parede, e fez uma pocinha de pó espalhada no chão. Nunca, ninguém soube qual foi a discussão entre os dois, mas uma tia dele, duas tias dele, três tias dele, na verdade, velhinhas, que acompanharam seus últimos dias, que não demoraram muito a vir, contaram esta história, a seguinte, tal como vamos contar agora, como se o próprio assassino estivesse contando:
“Depois que matei o Lorde Papagaio, e fez-se aquele alvoroço na cidade, fui levado à Delegacia, abriu-se inquérito, mas o delegado fez logo arquivar o caso, pois havia indícios de que o Lorde Papagaio era culpado. Além disso, eu tinha que fazer uns exames lá, pra verificar que eu estava louco, e disseram que era melhor nem fazer. Abafaram o caso, judicialmente. Mas, no dias que se seguiram, fiquei lembrando daquele maldito, com aquela carinha de inocente, dizendo pra mim: “Nunca mais!...”.
“Nunca mais o quê?, ô palhaço...”
“Nunca mais...”
Aí eu olhava pra ele, tentava disfarçar, tentei levar a conversa pra algum outro lado, depois fiz mesma coisa, e o olhar... O olhar do bicho... Só olhar já dizia: “Nunca mais!...”
Eu não estava triste! Quando cheguei no bar, estava até alegre. Foi só sentar naquela mesa, prestar atenção no Papagaio, e o olhar... meu Deus, o seu olhar!... com aquele cachimbo maldito soltando fumacinha, parecia me dizer: “Não... Você tenta se esquecer... Você acha que ninguém sabe... Você acha que pode enganar todo mundo... Mas eu sei que nunca mais você vai vê-la novamente...”
“Doutor, eu havia sido deixado pela ingrata, que foi pro Paraná havia muito tempo, mas nem me queixava disso. Eu nem sabia que ela me fazia tanta falta. Já tinha esquecido, ela já era sombra desaparecida, para mim, mas ELE!... AQUELE MALDITO PAPAGAIO!... me LEMBRAVA!... POR QUE FUI OUVIR AQUELA VOZ, MEU DEUS, POR QUÊ?!!...”
E foi assim que a história do Corvo se repetiu, num bar distante do Interior de São Paulo, insuspeitavelmente, anonimamente para o resto do mundo, que continuava girando, os carros passando nas grandes cidades, eventos naturais acontecendo em outros países, todos alheios a esse crime que chocou uma humanidade.
Depois de ouvirmos a história, os olhos do Cigano fixavam-se sobre nós, os dois homens que restaram nas mesas do bar ficaram olhando para nós, e os dois velhos que nos contaram a história ficaram esperando de nós uma resposta. Levantei-me da cadeira, caminhei até o Lorde Papagaio, e disse-lhe: “Seja lá o que aconteceu, sei que tua alma descansa com a de meus avós: as lembranças de minha infância.” Fiz o sinal da cruz, despedimo-nos dos homens do bar, e partimos pela noite já sem aquela chuva.
Incoerências acontecem. Assim é que termino a terrível história do Lorde Papagaio, dizendo, como me disse o velhinho assim que entramos no carro: “Não tenha dó, não; cada um tem as suas próprias e assombrosas histórias, e Deus há-de saber quais são as clarezas de nossos mistérios. Fausto foi um gênio criado por Goethe, um gênio ambicioso de todo conhecimento, que vendeu a alma ao diabo para consegui-lo. Não sejamos como Fausto. Que Deus, apenas, saiba os mistérios dessa nossa vida tortuosa.”
Nascidos para ver, mandados para olhar, depois de ouvirmos toda a história, saímos sem nem fazer a promessa de não falarmos mais nesse assunto.
Simplesmente, ligamos o carro, e partimos.
Já não chovia mais.
II
E o Gato Preto...? Bem,
como disse o antigo livro de ciências ancestrais, já citado anteriormente, o Gato Preto continua sua vida como se nada tivesse acontecido. Sai para namorar, come na casa dos outros, passeia à noite com verão e dama-da-noite. Ninguém lhe imputou nenhum crime. Vejo-o constantemente. Foi um herói coitadinho. Ninguém suspeita que ele veio das chamas e das sombras do Inferno.
O sol na estante
O sol, batendo em Kafka, lançava jatos imateriais de cor laranja, ao contato direto do sol da tarde, ao longo das tardes. E foi ficando branco e pálido; esmaecido. E eu não sei que fenômeno é esse, que desbota as cores. A luz sobre os objetos faz as cores explodirem. É assim. Só percebi que os livros estavam fenecendo quando vi que já estavam fenecidos. Enquanto as cores iam explodindo, eu não via nada. Quem é que via? Alguém que via? Ah, se alguém visse essa fogueira dos livros nas estantes...
A MENINA DAS ANDORINHAS
A torre da igreja é um triângulo de quatro faces, pontudo e delgado como um chapéu de aniversário, encimado por uma cruz que, à noite, é azul turquesa de néon, distinguindo-se das chamas redondas e imóveis dos postes amarelos da cidade.
Há inícios de manhãs muito suaves, nestes cantos do planeta, como esta, que veio manchando de amarelo mui suave a oeste do valezinho, até tomar a igreja, que ainda estava fresca. O quadrado da torre, cujo alto é centralizado pela torre e pelas quatro pontas de lança nos cantos, ligados por murinhos de alabastro. E dois pintores estão ali, na imaginação, pois tudo está desgastado de pintura, como se vê melhor agora.
Dentro do prédio da igreja moram as andorinhas. Elas passeiam pelo teto, onde se vêem os afrescos de cores claras, os grandes santos. E a menina aponta o dedo às andorinhas.
“Elas moram aqui. É a casa das andorinhas.”
Mozart
Mozart não é apenas um libertino: é mais do que as palavras podem dizer. O cigarro, convivendo com as rosadas florzinhas no vaso; parece ser harmônico. Mas corteja-la com mais desejo e com mais volúpia... Com a timidez da adolescência e a volúpia... Ah, seria mais do que deixar-lhe um perfume: seria deixar-lhe uma fragrância de rio quando ainda é pequeno e está entre os barranquinhos de matinhos, agro e frio...
Wednesday, December 08, 2010
Wednesday, November 17, 2010
AFGHANISTAN
Wednesday, November 10, 2010
IMAGINATION
O Normal e o Científico
Wedding
SE EU FOSSE PANTAGRUEL
Thursday, October 21, 2010
The Future
Ir e vir.
Poemas de uma outra vida (os três peixes)
Sunday, September 19, 2010
O SEGREDO
Sunday, September 05, 2010
A Pintura
Tuesday, May 25, 2010
Edgar Armond - "Buda"
Friday, May 07, 2010
O lobisomem
A chuva caindo do telhado
são grades de prata,
e eu não sairei deste agasalho
para ser baleado de prata,
ainda mais porque a lua estava cheia,
antes da chuva, e a noite era azul
tão azul
que por pouco não rolei na grama fresca.
o poço e o pêndulo
a lua crescente
a noite
a cidade acesa no fundo do vale
no entanto, se move...
ela é uma lâmina, vindo cortar o ramo
ela é um barco, vindo levar os frutos
ela nos corta do galho
e o perfume sobe
Thursday, May 06, 2010
Confúcio - "Tì tzu kuei"
"Tì tzu kuei" é a transcrição possível para o título de um livro confucionista, escrito, provavelmente, durante a dinastia Sung (970-1279). Trata-se de uma compilação de ensinamentos, visando a formação de uma criança. Procedemos à tradução desse livro, que entendemos importante, nos dias de hoje, em vista da confusão ética em que nos encontramos. A filosofia de Confúcio (séc. VI a.C.) pauta-se por um padrão de excelência nas relações humanas. Vejamos de que forma o filósofo entendia essa excelência, para uma criança.
("tì tzu" = discípulo / "kuei" = regra)
A Regra do Discípulo
(Conteúdo)
1
A regra do discípulo é um sermão para os santos:
em primeiro lugar, o amor filial e a fraternidade;
depois, a prudência e a credibilidade;
o amor universal, e, em seguida,
a proximidade da Sabedoria;
por fim, o tempo que se precisa ter
para estudar os bons livros.
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* Aqui estão os principais tópicos da formação da criança: o respeito devido aos pais, o amor devido aos irmãos, o cuidado devido à própria vida, o respeito devido à sociedade, o amor devido a todas as coisas, a necessidade da busca da Sabedoria e o tempo devido ao estudo das boas obras.
(O Amor filial)
2
Quando o nosso Pai ou a nossa Mãe
nos chamam
é importante responder imediatamente.
Quando nos ordenam,
é preciso responder prontamente.
Quando nos ensinam,
é preciso ouvir-los com respeito.
Quando se zangam,
é necessário obedecer-lhes.
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Há que se pensar, aqui, quem são o Pai e a Mãe, de que nos fala Confúcio. Se admitirmos um caráter esotérico, que certamente lhe é atribuível, o ensinamento pode se referir aos nossos "instintos", ou ao nosso "Anjo da Guarda", ou à nossa "consciência". Se estamos ligados, em profundo respeito e amor, a Deus e aos Seus, então as ordens dadas por essas criaturas elevadas devem ser obedecidas de pronto. "Não vá além daquele portão." "Não se aproxime daquela pessoa", "Veja o óleo do carro". Todas essas ordens e conselhos, sentidos interiormente, devem ser atendidos sem hesitação. Uma interpretação do texto, utilizando essa chave, pode ser muito útil a quem queira se dedicar ao caminho espiritual.
3
No Inverno, aquecer.
No Verão, arejar.
Bem cedo, acordar.
Acalmar, ao anoitecer.
A vida tem uma rotina, um equilíbrio,
uma estabilidade.
Assim também o homem:
deve avisar, quando chega
e deve dizer, quando sai.
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Essa lição foi bem modificada por mim, a fim de garantir uma leitura que apreenda mais rapidamente o significado. O equilíbrio, expresso pela troca das estações, é uma das manifestações da "rotina" da vida. O homem, guiando-se pelo exemplo do Sol (que acorda de manhã cedinho e se põe ao fim da tarde), deve usar a Palavra para fazer as vezes da claridade "onipresente" do astro (não sendo, naturalmente, claro e grande como o Sol, o homem deve "avisar" quando sai e quando entra). Considerações mais "esotéricas" podem ser tecidas...
4O pequeno não pode decidir sozinho
o que fazer. Do contrário,
terá um grave defeito.
O pequeno não pode esconder o que tem,
senão, os pais ficarão muito tristes.
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A lição parece fácil, e sem problemas percebemos que: se uma criança é acostumada a escolher, decidir e pensar por si própria, desde uma idade muito tenra, terá o grave defeito de não obedecer a nenhum mestre, ou aos professores, pais, patrões, etc. Num plano mais "espiritual", digamos, isso significa que o "pequeno" (o "ego", ou "eu" inferior) deve se acostumar a receber ordens do "Eu" Superior, o "Espírito", ou seja, a melhor parte de cada um de nós (a parte intelgiente e "divina"). Na segunda frase, diz-se que o "pequeno" não pode esconder o que tem (seja um doce, um brinquedo, ou mesmo uma grande qualidade), sob pena de deixar os pais (o "Eu Superior", talvez) muito tristes, com o seu egoísmo. Indica-se, aqui, a total dependência que deve ser criada na criança, em relação aos pais: não se deve agir por conta própria, nem se deve guardar algo só para si. Os pais devem ser consultados sobre a ação, e avisados sobre os pertences. Só assim os "pequenos" poderão ser bem aconselhados quanto ao uso.
5
Esforce-se por fazer
bem
aquilo de que os pais gostam,
e tenha o cuidado de tirar
aquilo de que não gostam.
Se o corpo se machuca,
os pais ficam preocupados.
Se a virtude se machuca,
eles sentem vergonha.
Quando os pais te amam,
o respeito, o amor filial, não são difíceis.
Quando os pais te detestam,
o respeito, o amor filial são mais meritórios.
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O problema apresentado por essa tradução se refere ao termo "hsiao", que designa um sentimento, misto de respeito, amor, devoção aos pais. Freqüente, o equivalente, em Português é: "piedade filial". De início, Confúcio chama a atenção para que nos esforcemos por agradar os pais, seguindo seus conselhos. Em seguida, chama a atenção para cuidarmos do corpo e, acima de tudo, da moral. E, por fim, exorta-nos a amar os pais, mesmo que não sejamos correspondidos de forma alguma. Poderíamos falar, aqui, de: "amor incondicional".
6
Se os pais têm erro,
é nosso dever aconselhá-los,
com o rosto alegre,
com a voz macia.
Caso o conselho não funcione,
felizes, de novo, aconselhamos.
Se os conselhos não funcionam, porém,
só nos resta chorar.
E, se eles nos batem,
não reclamamos.
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Os pais também têm defeitos, e é dever do filho aconselhá-los. Mas, a deferência deve ser mantida.
7
Se os pais estão doentes,
o filho, primeiro, experimenta o remédio.
Dia e noite
fica a serviço.
De perto da cama não sai.
Em caso de morte,
o luto é de três anos.
Nada se muda, no lugar onde moravam.
Não se comemora nada.
É preciso observar cuidadosamente as regras.
A oração deve ser muito sincera.
O morto deve ser tratado
como se estivesse vivo.
------------------------------
Confúcio sabia das coisas. Na primeira parte dessa lição, está o cuidado que os filhos devem ter, com os pais que se adoentaram. Na segunda parte, os conselhos se referem, sabiamente, à vida após a morte: os "mortos" continuam vivos, e, por isso, a deferência deve ser mantida.
(A Fraternidade)
8
Quando o irmão mais velho é amigo da verdade,
e o irmão mais novo respeita a verdade,
então, há harmonia entre os irmãos.
Quando se incorpora o amor filial,
tudo quanto é material perde importância.
Por que reclamar?
Se as palavras têm tolerância,
como podem se desenvolver a raiva e a infelicidade?
-----------------------------------
Essa é a primeira regra da Fraternidade (ou seja, a primeira regra que diz respeito aos relacionamentos FORA de casa). A harmonia entre os irmãos depende da devoção de cada um à mesma Verdade.
9
Ao beber, ao comer,
ao sentar, ao andar,
o mais velho em primeiro lugar
e o mais jovem atrás.
O mais velho chama,
e imediatamente se deve atendê-lo.
Se a pessoa chamada não está,
é preciso avisá-lo imediatamente.
-------------------
Sempre seguir o mais velho. Sempre.
10
Não se deve chamar o mais velho
pelo nome.
Não se deve mostrar sabedoria
na frente do mais velho.
Encontrando-o na rua,
é preciso rápido cumprimentá-lo.
Caso ele não fale,
é preciso ficar em pé, atrás dele, em muito respeito.
Encontrando com ele,
é preciso descer do cavalo,
descer da carroça,
e esperá-lo passar
mais de cem passos.
-----------------------------
A regra "descer da carroça" e esperar o idoso passar "além de cem passos" é, em nossos dias, algo a ser observado "espiritualmente".
11
Quando o mais velho está em pé
o mais jovem não se senta.
Primeiro, o idoso se senta,
e só depois manda o jovem se sentar.
Em frente ao idoso
é preciso falar baixo,
mas ser audível.
Para entrar, é preciso não demorar,
mas, para sair, é preciso demora.
Caso ele pergunte alguma coisa,
não mudar a visão, ao responder.
12
É preciso servir o tio
como se se serve o pai,
e servir o primo mais velho
como se serve o irmão mais velho.
(A Prudência)
13
Quando se levanta de manhã
e se dorme à noite,
é fácil atingir a longevidade.
Esse tempo não pode ser perdido.
De manhã, é preciso lavar o rosto,
lavar a boca,
e, a cada vez que se vai ao vaso,
é preciso lavar as mãos.
------------------------
Disciplina, em outras palavras. ..
14
Chapéu correto,
botões atados,
meias certinhas
nos sapatos bem amarrados.
Tudo tem um lugar e uma maneira corretas,
e não se deve misturar as roupas sujas
com as roupas limpas.
------------------------
Para Confúcio, o homem é (ou deve ser) uma representação de Deus. (Feito à "sua imagem e semelhança"). Daí o apreço pela aparência.
15
As roupas não precisam ser caras,
mas precisam ser limpas
e adequadas.
Não se deve escolher
o que beber, o que comer,
e não se deve ir além
do suficiente.
Quando se é jovem
é melhor se abster de álcool.
O alcoolismo
é horrível...
16
Moderação no andar,
correção no estar em pé,
profunda curva, na reverência.
Não pisar na soleira.
Não se encostar aos móveis e paredes.
Não estender o pé, ao estar sentado.
Não rebolar, ao andar...
17
Sobe-se a cortina devagar,
sem fazer barulho.
A curva deve ser feita largamente,
sem tocar os cantos.
Segura-se o prato vazio
como se segura o cheio.
Entra-se no quarto vazio
como se alguém estivesse lá.
Não fazer nada correndo.
Não temer o difícil,
nem subestimar o fácil.
Lugares de maus sentimentos,
sequer passar perto...
Não querer saber
do que é péssimo.
--------------------
"Não perguntar detalhes do que é ruim".
18
Quando entrar pela porta
perguntar quem está.
Quando na sala de visitas,
é preciso chamar alto.
Se alguém pergunta "Quem é?"
deve-se responder usando o nome,
e com clareza.
Com clareza se deve pedir
para usar a coisa de alguém
- do contrário, trata-se de roubo.
Ao emprestar de alguém alguma coisa,
é preciso dar satisfação na hora marcada.
Do contrário, mesmo na urgência,
é difícil conseguir de volta.
(Confiança, Credibilidade)
O que quer que saia de sua face,
em primeiro lugar, deve ter credibilidade.
Se não temos credibilidade,
o que faremos?..
É melhor falar pouco
do que falar muito.
Não bajular,
mas falar a verdade.
As palavras muito ruins
sujam o vocabulário.
Muito importante não transmitir
a energia das cidades.
------------------------
O que Confúcio entende por "energia das cidades": falar alto, falar em termos materialistas, propagar a vaidade, etc.
19
Quando ainda não se sabe a verdade,
não se deve falar.
Não se deve falar
sem ter certeza do que diz.
Não se deve prometer facilmente,
sem ter certeza de que é o bem.
A promessa feita levianamente
leva, fatalmente, ao erro.
O que quer que seja falado
deve ser claro.
Não se deve falar rapidamente.
Não se deve falar aqui, uma coisa,
lá, outra coisa.
E o que não tem relação conosco
não deve ser assunto nosso.
------------------
Confúcio diz: "não devemos nos meter no que não é assunto nosso".
20
Quando vemos uma pessoa bondosa,
é preciso aprender, imediatamente.
Pouco a pouco
alcança-se o talento.
Quando vemos uma pessoa maldosa,
é preciso, imediatamente, refletir.
O que precisa ser corrigido
deve ser corrigido na hora.
Se não há nada a ser corrigido,
é preciso aumentar o alerta.
----------------------
"Vigilância", sempre. "Refletir", no caso, pode ser entendido, literalmente, como "não absorver".
21
Se a habilidade
e o conhecimento das virtudes
não é como o de outra pessoa,
imediatamente nos pomos a esforçar.
Se as roupas, bebida, e comida
não são como os de outra pessoa,
não devemos nos enraivecer.
22
Ao ouvirmos nossos erros,
ficamos com raiva.
Ao ouvirmos elogios,
ficamos felizes.
Quando vem o amigo ruim
vai embora o amigo bom.
Ao ouvirmos um elogio,
devemos ter medo.
Ao ouvirmos um erro,
devemos ficar felizes.
Assim, atraímos, pouco a pouco,
as pessoas boas, corretas,
leais, verdadeiras e educadas.
23
Ao erro não intencional,
chamamos "erro".
Ao erro intencional
chamamos "pecado".
Um "erro" pode ser corrigido completamente.
Mas, um erro que se esconde
aumenta um pecado.
-----------------
A importância da "confissão"..
(O Amor Universal)
24
Qualquer pessoa
deve a tudo amar.
O mesmo céu nos cobre,
e a mesma terra nos carrega.
25
Se uma pessoa se conduz pelo Bem,
seu nome é igualmente Alto.
O que importa, assim,
não é a alta aparência...
A pessoa de alta capacidade
tem, naturalmente, alta fama.
O respeito que se deve a uma pessoa
não vem do que diz ou do que dizem dela..
26
Não sejamos egoístas de nossas capacidades,
nem invejosos das capacidades dos outros.
Não bajulemos o rico, nem nos orgulhemos
perante os pobres.
Não desfaçamos das coisas velhas,
nem nos deslumbremos com as coisas novas.
Não perturbe quem está ocupado,
e não deixe mais preocupado quem já está preocupado...
27
Não exponha ao público
o defeito de ninguém,
nem, revele qualquer segredo.
Mas, propagar a bondade de uma pessoa
é ser, igualmente, bondoso.
A pessoa, sabendo disso,
procurará fazer melhor.
Se propagamos o mal de uma pessoa,
somos, igualmente, maus,
e tomamos muita dor, muita aflição.
Encorajar o bem comum
é construir, sempre, a virtude.
Não corrigir o erro
é perder a moral.
28
Ao dar e ao receber
é preciso ter clareza.
É melhor dar bastante
e receber pouco.
Ao pedir, é preciso
perguntar a si mesmo
se você mesmo não queria (?).
Caso isso aconteça, é preciso parar, na hora.
Retribua o amor desconhecido.
Esqueça o rancor.
Retribua o rancor, imediatamente, com o esquecimento,
e retribua, longamente, o amor...
29
Deve-se tratar os empregados
da maneira correta, usando de caridade
e tolerância.
Pode-se usar o poder,
para subjugar as pessoas,
mas o coração delas não pode ser subjugado assim...
A Verdade supera o mundo,
e, quando ela é dita, todo se aquietam.
(Perto da Sabedoria)
30
Todas as pessoas são iguais,
mas os "tipos" de pessoas são muito variados.
As pessoas comuns são muitas,
mas as pessoas especiais são poucas...
O Sábio é corajoso.
Não se intimida, ao falar a verdade,
e não adula ninguém.
Se pudermos estar próximos de um Sábio,
isso é indescritivelmente bom.
Nossos méritos aumentam a cada dia,
e nossos erros diminuem a cada dia.
Mas se não estamos perto de um Sábio,
isso é, indescritivelmente, ruim...
Caso uma pessoa inferior se aproxime, então,
não há como descrever como seja pior...
(Estudar bons livros)
Os estudos devem ser profundos,
nunca superficiais.
não esforça
mas só de livros
mas se se esforça
não aprende
usar sua cabeça
não é claro entender (apego)
31
O estudo deve atingir
o coração, os olhos e a boca.
É muito importante, quando estudamos,
não pensar em outro assunto.
Enquanto não terminamos um livro,
não comecemos um outro.
Os limites, para o estudo, devem ser largos.
Mas, o esforço deve ser restrito.
A prática nos dá acesso aos problemas.
Se temos dúvidas,
na hora, devemos anotá-la.
Ao ver alguém,
devemos, imediatamente, perguntar.
32
O quarto de estudos deve ser limpo.
A parede, limpa.
A escrivaninha, limpa.
As canetas devem estar em ordem,
e os lápis, apontados.
Se o coração não está correto,
as palavras não têm respeito.
O lugar dos livros deve ser fixo.
Depois de consultá-los,
deve-se guardá-los no lugar,
para o caso de urgência, saber encontrá-los.
Amarrar certinho os manuscritos
e, se têm defeito,
é preciso, na hora, consertá-los.
Se o livro não é um "sutra",
é melhor não lê-lo,
pois o mau livro fecha a inteligência
e estraga os propósitos do coração.
Não o jogue fora,
nem desanime:
a santidade se alcança
devagar.
Monday, May 03, 2010
"Livro do Desassossego" - Fernando Pessoa
Thursday, April 08, 2010
Cartas - Camilo Pessanha e Ana de Castro Osório
Quero escrever toda esta carta do meu cérebro, como um trabalho meticuloso de análise. E infelizmente o meu pobre cérebro, sinto-o dorido, desfeito por duas noites angustiosas de insônia, pelos incômodos e sobressaltos da jornada, para mim sempre penosíssimos, e pela excessiva tensão do trabalho de uma audiência irritante, até às cinco horas em jejum absoluto por falta do tempo indispensável para tomar qualquer alimento. O meu estado de extrema debilidade mental poderá V. Exª. apreciá-lo, dizendo eu que no fim da audiência ainda não sabia de cor os nomes dos meus dois constituintes, repetidos diante de mim por quinze testemunhas!
Anteontem disse eu a V. Exª. umas palavras tão inoportunas e tão desastradas que um estudante de colégio se envergonharia de as ter dito. Espero que me tenham sido perdoadas. Foi a necessidade, para mim impreterível, de pedir autorização para escrever esta carta, que me o brigou a declarar naquele momento o meu velho desígnio de ter V. Exª. por minha companheira, e a própria maneira brusca por que o declarei, perturbou-me, ao ponto de, para me justificar, dizer todas aquelas palavras que se seguiram, das quais cada uma só ia agravando a minha perturbação.
Lembro-me, por exemplo de ter dito que V. Exª. poderia desde logo decidir das minhas esperanças, porque me conhecia: “que eu sou o que pareço ser”. Isto é de uma falta de delicadeza e de inteligência que deve ter surpreendido muita a V. Exª., porque a mim próprio me surpreendeu. Decididamente, eu sou bem o que pareço.
E acredita V. Exª. que para tanto fui de propósito a Setúbal, tendo meditado um ano?! Desde quando estive em Mangualde. Tenho na memória, vivíssima, a lembrança daquela noite, quando entrei no meu quarto para seguir na madrugada seguinte para Lamego. Embarquei no meu quarto como quem embarca em um navio. Uma efusão de despedidas muito amiga, desvelos que eu nunca poderia esquecer pelo contraste de doçura na minha vida desguarnecida de afectos, desconfortável e desamorável. Para ser tudo, nem a saudade me faltava. V. Exª. Estava, sacrificada, toda tremente do frio.
Como eu quisera ter anteontem podido dizer toda a saudade agradecida desse momento. Frustrado, o meu íntimo poema delicadíssimo!
Há, julgo eu, dizeres obrigatórios nas cartas que precedem o casamento e são os títulos provisórios deste contrato. Nem disso me admiro, visto que os títulos definitivos são escrituras feitas por mão de tabeliões. O contrato de casamento está, como qualquer outro, regulado por disposições do Código Civil em todas as suas minudências, desde os deveres de coabitação e de fidelidade, comuns aos dois cônjuges, até ao de obediência, que é exclusivo da mulher, e ao de administração dos bens comuns, a cargo exclusivamente do marido.
Nunca eu escreveria por minha conta uma dessas cartas oficiais. É uma espécie de hiperestesia do meu senso moral... Por conta de outrem já as escrevi. Uma vez um estudante de medicina quis utilizar em tal emprego as minhas supostas qualidades literárias. Fiz o rascunho de uma carta... e de muitas outras consecutivamente.
Depois tive de interromper a minha formatura, e um dia, passando por Coimbra, fui hospedar-me no Hotel dos Caminhos de Ferro, de que era dono o pai do signatário das minhas cartas. Soube por este que as suas relações epistolares tinham terminado, naturalmente à míngua de prosa do amanuense. E, como eu estivesse no seu quarto e este saísse por um pouco, abri distraidamente um livro de formato comercial, onde encontrei as minhas cartas, copiadas todas na melhor caligrafia.
Há pouco soube que o estudante, já médico, tinha casado em uma terra gorda do Ribatejo, tendo encontrado noiva que lhe trouxesse mais pesado encargo de administração de bens.
Como puderam ambas ser iludidas pela minha prosa impessoal!
Antes quero que esta carta vá fora de todos os preceitos, mas que seja toda escrita por mim, representando cada palavra uma porção de doloroso trabalho intelectual. Só assim poderá ser absolutamente verdadeira, eu só pretendo ser aos olhos de V. Exª. precisamente o que sou. Para que havia de escrever palavras, que de vagas nenhuma impressão me sugerem, e de usadas nenhum relevo têm? Que mais poderia eu oferecer a V. Exª. do que o trabalho do meu cérebro, que eu sinto pensar como um cavador extenuado sente pela própria dor dos músculos cada movimento dos braços.
Minha avó materna morreu no hospital de Coimbra. V. Exª. terá meditado o que é a escravatura da plebe, trabalhando até ao completo esgotamento de forças, instigados por vergastadas nos seus desfalecimentos, e levados de rastos quando já não podem suster-se de pé. Uma vez dizia-me um jornaleiro, velho e doente: “Um homem é como um animal: enquanto não está morto pode caminhar: é questão de lhe darem cacetada.”
Depois, quando a sua carne já não podia estremecer ao estímulo do sofrimento, serviu de sobre ela se fazerem observações anatômicas, indiferentemente, - o triste despojo envilecido.
Vem daqui, penso eu, a minha falta de alegria e este fenômeno de todas as minhas sensações terem sido antes pensamentos: de me sentir pensar e de nunca me esquecer de que o cérebro é um pedaço de massa cinzenta ensanguentada. Daqui esta carta anormal, que me tem levado horas a escrever (agora reparo que só poderá ir no correio de amanhã) e que em V. Exª. deverá causar uma terrível impressão de frio. Porém eu tudo sacrifico, até as minhas esperanças, no desejo de não iludir V.Exª.
Óbidos, IX/8bro/IX93, De V.Exª.
Servo humilde
Camilo Pessanha
Setúbal – 20-10-93
Ex.mo. Sr
Surpreendeu-me, bem viu, a sua declaração no caminho do castelo. Se eu estava tão longe dela! Não pude mesmo encontrar uma palavra para responder. E não podia, mesmo hoje. De viva voz creio que não saberia dizer nada. O meu espírito tem destes acanhamentos que eu não posso vencer. Fiquei triste por não lhe poder dizer alguma cousa; e estes quatro dias tenho sofrido com isso. Mas hoje que recebi a carta de V. Exª. posso já dizer-lhe tudo que sinto. Afligiu-me saber que não tinha por mim, esta simpatia vulgar que quase temos por toda a gente que conhecemos melhor; que sentia por mim mais alguma cousa, que pensava em mim doutra maneira. Diz que eu sou terna: parece-me que é a verdade, ainda que o não sou para a maior parte da gente. Impressiona-me, aflige-me o menor sofrimento das pessoas que sentem alguma cousa de verdade no meio desta comédia toda. Aflige-me principalmente quando esse sofrimento é causado por mim, ainda que involuntariamente.
Agradeço-lhe muito a franqueza de sua carta. É possível que se ela fosse das tais que é costume escrever, nem eu lhe respondesse. Como era uma questão comercial e eu nada entendo disso, encarregaria outros, de agradecerem e recusarem.
Mas não é assim, o Sr. Camilo Pessanha sabe que o compreendi e desejo responder-lhe com igual franqueza, numa carta que estará igualmente fora de todas as regras e de todo o costume.
Não posso aceitar o seu oferecimento porque prometi há muito tempo já, casar com outro homem. Foi quase uma criancice no princípio, tinha apenas 15 anos. Hoje é uma grande dedicação. E creio que ele precisa dela, porque é também um desiludido. Não sei mesmo se ele já mudaria; às vezes parece-me que sim. Mas bem vê que não posso dar a V. Exª. o que prometi a outro. Vulgarmente ninguém se importa com isso. Nunca vi mulher que se prendesse com promessas. Mas eu, sou muito franca, muito leal, para faltar ao que prometo. Mesmo se ele esquecesse estaria eu livre? Creio que não. As faltas dos outros não desculpam as nossas.
É possível mesmo que eu nunca case, o que não acontecerá a V.Exª. que decerto encontra outra mulher que o faça feliz, como eu creio que faria, se nos tivéssemos encontrado antes. E como vai para longe esquecerá a mágoa que porventura lhe fará a minha recusa, mas não deixe de me ter amizade como eu lhe terei sempre. Eu não disse nem digo a ninguém que recebi a sua carta e a sua declaração que muito me envaideceria e que me alegraria se pudesse responder-lhe d´outra maneira. Bem vê que lhe respondo francamente; por isso, se não lhe custar muito, venha despedir-se quando partir. Todos o estimam muito e nada haverá que o constranja no espírito dos outros. Eu desejava que me perdoasse o desgosto que lhe causei e que fosse meu amigo como o é de sua irmã, como eu o sou de V. Exª. Desculpe ainda esta carta sem jeito, mas não sou capaz d´escrever outra. Não sei: é tudo que sinto e assim o compreenderá. E quando mais tarde a olhar a sangue-frio rasgue-a então, que lhe verá todos os erros sem a verdade que lhe pôs nela a
Sua amiga verdadeira
Ana de Castro Osório
Exma. Senhora:
A lembrança da obsequiosa carta de V. Exª. vai ficar na minha memória (para que direi no meu coração?) inolvidável pelas consolações que me trouxe. Poderá esta afirmação parecer a V.Exª. um absurdo, ou o desmentido das próprias esperanças que eu na minha anterior carta confessara, e que eram verdadeiras (V. Exª. o acredita decerto), apesar de, bem o reconheço, terem vivido alimentadas exclusivamente da minha vida, e aquecidas exclusivamente do meu calor. Nos tristes casebres da Beira, de lousa solta e de telha vã, aquela pobre gente costuma guardar como ornamento, e pelas grandes virtudes que lhe atribui, a haste cortada de uma planta chamada bálsamo. Julgo que este nome lhe provém da sua extrema frescura, que se aproveita aplicando as folhas como refrigério sobre as queimaduras; mas não é menos certo que poderia derivar do fenômeno, que eu tenho observado, de aquela haste, colocada fora de todas as condições aparentes da vida vegetal, ser tão vivaz que constantemente se vai enfolhando de novo, à custa das folhas velhas que vão fenecendo.
Nos “Casos raros da confissão”, há uma pobre condenada que caminha o seu fado através as solidões da eterna noite “a cavalo em um feio dragão”. Dos lados acompanham-na “dois temíveis cães”, que com as presas lhe vão lacerando os músculos das pernas em constantes investidas. Mordida nos seios por duas víboras. Estrangulada por uma serpente, que se lhe enrosca no pescoço em colar. Uma longa enumeração de tormentos, - todo um compêndio de zoologia distribuído em anéis e arrecadas, manilhas e braceletes, picaduras de tarântulas, que injectam venenos de fogo. E, como tão grandes torturas não sejam bastantes para convulsionar os nervos embotados do frade inquisidor que imaginou o livro “um bugio vai quebrando à condenada os dentes com uma pedra”.
Só eu posso compreender bem o requinte desta última crueldade. Aos pavores da epilepsia, legado que eu herdei transmitido por minha mãe (a qual já se tem debatido longos períodos no cárcere tenebroso da loucura), às misérias da minha existência desamparada e vagabunda, têm-se reunido os desprezos, por vezes insolentes, de quem quase sempre me é inferior. A cavalo em cada “feio dragão” dos meus pesadelos, têm sempre viajado comigo bugios de carne e osso incumbidos especialmente de me quebrarem os dentes.
Não estou habituado a que alguém amorteça os golpes que vou recebendo, ou sequer ate depois as feridas com as brancas ligaduras misericordiosamente. Se alguma vez sinto menos a dor, é pela anestesia que resulta da desproporção do sofrimento. E a carta de V. Exª. foi tão escrupulosa em atenuar o golpe inevitável, que chegou a ungir de piedade as velhas úlceras cancerosas.
Vou partir, diz V. Exª., para longe: arrastar-me e sangrar. Mas levo ao menos a dúlcida memória deste incidente. Ninguém haverá da minha idade que não tenha tido a deleitação de alguma longa correspondência amorosa. Palavras tão maternalmente benignas com as que V. Exª. me dirigiu, talvez nenhum as tenha lido nem ouvido.
Recomenda-me V. Exª. que rasgue a sua carta quando a puder ler indiferentemente. Ainda que me fosse dado obedecer, quando chegaria a ocasião de tornar efectiva a obediência? Quando poderia eu ler a carta de V. Exª. sem comoção, pelo menos sem a serena comoção das lágrimas agradecidas?
Restituo-a. não me pertence, íntima como é, e escrita por uma excessiva compreensão dos deveres de primorosa cortesia e de amizade: guardo apenas das suas palavras a saudade puríssima, que é minha.
Porém a minha primeira, e esta última (tão longa, onde vai o meu abuso!) peço a V. Exª. que não as devolva. Foram escritas para V. Exª. (quem mais as compreenderia?), e deixaram de pertencer-me, por isso, todas as tumultuárias impressões, de que V. Exª. não é culpada, embora, e de que eu atropelei e denegri esta meia dúzia de páginas, as melhores que porventura terei escrito. A V. Exª., somente, compete rasgá-las. Pois de que serviriam, com as suas manchas estranhas, negro e sangue, um dia, na corbeille de noiva?
Quando estudante, muitas vezes formulei comigo a seguinte pergunta: se dos meus oitenta condiscípulos setenta e oito eram os monstros de matéria que eu conheci, o que não seriam as setecentas e oitenta irmãs e primas de todos eles, se não tiveram sequer a espiritualizá-las as palmatoadas no colégio, os sustos pelas lições e pelos exames, e os RR?
E, todavia, diz V. Exª. que eu encontrarei outra mulher, que me fará feliz. É, com efeito, provável, quase certo que eu me resigne (não é a resignação a maior das felicidades segundo a “Imitação de Cristo”?) a ser o marido, o doente de que seja enfermeira qualquer das setecentas e oitenta. Assim há-de ser quando o isolamento, longe de quatro amigos intelectuais, meu único amparo, as contrariedades, talvez as febres do pântano africano e com certeza as últimas desilusões, tiverem aniquilado de todo a minha vontade e despontado os meus orgulhos, que são como espinhos de ferro.
Diz-me V. Exª. que não queria perder a sua amizade. Porque haveria de perdê-la? Somente poderia sê-lo pelo mal que fiz obrigando V. Exª. a entristecer e afligir-se pelas minhas tristezas. E a prova mais completa da minha amizade é esta carta serena e lúcida. Obedecerei a V. Exª. indo despedir-me antes de partir; amizade incondicional.
De V. Exª.
Servo humilde e agradecido
Camilo Pessanha
(In: Colóquio/Letras, n. 155/156, jan-jun 2000. Lisboa : Gulbenkian, p. 43-50.)
Monday, April 05, 2010
"Os Irmãos Karamázovi", Dostoiévsky
Tuesday, March 30, 2010
Um Mestre chinês ...
senão caminhar pela superfície deste planeta
com os olhos vendo
todas as coisas que o tocam?
a estrela distante o toca,
o vento o toca,
o solo, a terra o toca,
o ar o toca,
os sons o tocam,
a luz o toca,
tudo toca em Si; mas,
porque o homem sente que está
Só?
(Não se feche:
abra teu ser e teu coração,
e poderá se ligar completamente a todas
essas coisas; e sentir, aqui,
o que nunca sentiram nesta terra:
paz.
Friday, March 12, 2010
Waiting for the expectation
a powder taste: last of the feast."
Descends in tender folliages the hill -
In glauquous tones, distended and asleep
That heal with fresh my fired eyes
Where the flame of fury declines.
O, come! In white! From the innermost site!
Your hands, light, the branches apart,
Come! My eyes want to see you!
Brided in my eyes where you see you!
Branches mad, a stick in your finger
How rose a tiny plum, a dot, is born from this kissing,
Sweet the breeze, flowing dress,
Come! In white! From the innermost site!
Soul of sylph, camellia´s bright,
Tuesday, March 09, 2010
AURA AMARA
semente, amarga.
Amargor que polui,
todo o nosso paladar.
Mas, demora em tua boca,
como bala, e a semente se descasca,
e vem uma carne fresca! - não
morda. A carne fresca vai se tornando
branca. Esmaecendo. Até que,
com sabor suavíssimo, se morda.
Wednesday, March 03, 2010
"Macau e a Gruta de Camões" - por Camilo Pessanha.
Tem-se debatido desde há anos a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não preso no tronco da cidade, se aqui desempenhou ou pode ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. A polêmica há-de decerto renascer mais animada algum dia; e provável é que o problema venha a decidir-se finalmente pela negativa.
É a sorte de todas as tradições consagradas. A crítica histórica, a história-ciência, positiva e experimental, vem fazendo tábua rasa de quanto é anedótico e pessoal, das atitudes esculturais, dos gestos dramáticos, das frases eloqüentemente concisas, em que tradições lentamente evoluídas, haviam definido, em termos quase sempre de inexcedível beleza, um caráter, um acontecimento ou uma época. Para só me referir à história literária, basta lembrar que, demonstradamente, Homero nunca existiu; e que, quanto a Shakespeare, se é, ao que suponho, incontestado ter havido no século XVI a XVII um ator inglês desse nome, não falta já quem lhe negue a autoria de todas e cada uma das tragédias que o mesmo nome imortalizaram e para apreciação de cujo valor não se encontra termo de comparação mesmo nas supremas criações do teatro grego clássico.
Mas discussões são essas de caráter puramente acadêmico, só interessando à investigação erudita. Se as tradições estão bem arraigadas e vivas não será a demonstração de sua inexatidão histórica que as poderá destruir. É que não foi nas dissertações dos sábios que elas germinaram e medraram, nem é delas, mas do sentimento popular, que tiram a seiva. A Ilíada e a Odisséia hão-de chamar-se sempre os poemas homéricos; e quando os infatigáveis sapadores que são os historiadores modernos chegarem à conclusão de que Shakespeare não existiu, ou de que não sabia escrever, nem por isso a série de assombrosas figuras animadas que, no Hamlet, no Macbeth, no Otelo, no Rei Lear, se estorcem nas grandes crises das suas paixões sobre-humanas, traduzindo, ampliadas até ao grandioso, todas as modalidades de afetividade, cessariam de construir a galeria das personagens shakespearianas.
Há, é certo, lendas e lendas, tradições e tradições: umas sublimes, outras grotescas. Estas são efêmeras, aquelas eternas. Basta como exemplo da indestrutibilidade destas últimas o da lenda heróica da Grécia.
A vitalidade das tradições lendárias, ou quase lendárias, depende essencialmente de dois requisitos. É necessário que o objeto a que se referem se imponha pela sua grandeza à admiração contemplativa de todos os tempos. É-o igualmente que a própria tradição, nos diversos fatores que a constituem, seja adequada a esse objeto. As tradições pertencem ao folclore, há nelas, preponderante, um elemento estético; e toda a obra de arte precisa, antes de mais nada, de ser bem equilibrada.
Quanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epopéia marítima que culminou na formação do vasto império português do século XVI, estão acima de qualquer discussão. Resta apenas ponderar se Macau, esta exígua península portuguesa do mar da China ligada ao distrito chinês de Heong-Shan, tem qualidades que a recomendem para assim andar associada à memória dessa epopéia e à biografia do poeta sublime que a cantou.
Ora essas qualidades tem-nas Macau como nenhum outro ponto do globo. Macau é o mais remoto padrão da estupenda atividade portuguesa no Oriente nesses tempos gloriosos. Note-se que digo padrão, padrão vivo: não digo relíquia. Há, com efeito, padrões mortos. São essas inscrições obliteradas em pedra, delidas pelas intempéries e de há muito esquecidas ou soterradas, que os arqueólogos vão pacientemente exumando e penivelmente decifrando, tão lamentavelmente melancólicas como as ressequidas múmias dos faraós.
A fatalidade do determinismo histórico fez que a colonização portuguesa quase exclusivamente se desenvolvesse adentro dos trópicos, e, com exclusão de Macau, todas as colônias portuguesas, ou ex-portuguesas de clima relativamente temperado são situadas no hemisfério austral. Assim é Macau a única terra do ultramar português em que as estações são as mesmas da metrópole e sincrônicas com estas. É a única em que a Missa do Galo é celebrada em uma noite frigida de Inverno; em que a exultação da aleluia nas almas religiosas coincide com o alvoroço da Primavera – Páscoa florida com a alegria das aves novas ensaiando os seus primeiros vôos; em que a comemoração dos mortos queridos tem lugar no Outono. Mais ainda: em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal menos freqüentada pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas, destacando a cada canto em retângulos de papel vermelho, das águas amarelas do rio e da rada, onde deslizam as lentas embarcações chinesas de forma extravagante, com as suas velas de esteira fantasmáticas, e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra portuguesa. Quem estas linhas escreve teve, por várias vezes (há quantos anos isso vai!), deambulando pelo passeio da Solidão, a ilusão, bem vivida apesar de pouco mais duradoura que um relâmpago, de caminhar ao longo de uma certa colina da Beira Alta, muito familiar à sua adolescência.
Ora a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes, no húmus do solo natal. É por isso que os grandes poetas são em todos os países os supremos interpretes do sentimento étnico. Toda a poesia é, em certo sentido, bucolismo; e bucolismo e regionalismo são tendências do espírito inseparáveis. Notáveis prosadores (basta lembrar, dentre os contemporâneos, Lafcádio Hearn, Wenceslau de Moraes e Pierre Loti) têm celebrado condignamente os encantos dos países exóticos. Poeta, nenhum. Os poucos que vagueiam e se definham por longínquas regiões, se acaso escrevem em verso, é sempre para cantar a pátria ausente, para se enternecerem (os portugueses) ante as ruínas da antiga grandeza da pátria e, sobretudo para dar desafogo à irremediável tristeza que os punge. E se na reduzida obra poética colonial desses escritores – Tomás Ribeiro, Alberto Osório de Castro, Fernando Leal (este último nascido na Índia, mas nem por isso menos exilado ali, português como era pelo sangue e pela educação) – se encontram dispersos alguns traços fulgurantes de exotismo, é só para tornar mais pungente pela evocação do meio hostil de inadequado pela sua estranheza à perfeita floração das almas – a impressão geral de tristeza – da irremissível tristeza de todos os exílios.
Veio toda esta divagação a propósito de dizer que ainda é Macau a única terra de todo o ultramar português em que se pode ter até certo ponto a ilusão de se estar em Portugal, essencial ao exercício por portugueses da sua especial atividade imaginativa... Para concluir, contra toda a tradição e contra toda a evidência histórica que tenha sido escrita ou concebida em Macau uma parte considerável da vastíssima obra poética de Camões? Seria verdadeira loucura.
O gênio de Camões, alimentado embora exclusivamente da seiva que trouxera da Pátria – da imagem viva da sua paisagem, da lembrança minuciosa e fiel dos seus costumes, da sua história, das suas lendas, das suas crenças, da sua cultura científica e literária –, teve pujança bastante para triunfar dos meios mais adversos, para resistir aos mais implacáveis fatores de perversão e de atrofia. As suas composições são datadas (indiretamente datadas) dos mais diversos pontos e dos mais inclementes climas – da África e da Ásia, por onde no século XVI se estendia o imenso império português e se despendia a exuberante energia da raça portuguesa. Muitas das obras-primas do seu lirismo, das mais tipicamente nacionais pelo acentuado tom elegíaco de que estão impregnadas, brotaram na Índia do seu coração saudoso: e uma delas, das mais comoventes e das mais conhecidas, nasceu entre essa penedia sinistra da costa do mar Vermelho, dessas nuas penedias incandescentes, que escaldam os pés de quem ali desembarca, e parecem, vistas a certa distância, formadas de escumalha de ferro.
Mas a terrível ação depressiva do clima e do ambiente físico e social dos países tropicais, se não tiveram poder contra a assombrosa vitalidade criadora do poeta máximo, têm-no todavia, não só para esterilizar em cada um de nós outros, os pigmeus que a quatro séculos de distância o contemplamos, o pouco de aptidão versificadora que algum tivesse, mas ainda para destruir, mesmo nos melhor dotados, a comezinha parcela de imaginação de que é indispensável dispor quem intente evocar a estatura do gigante, o seu esbelto perfil e a sua figura augusta. E, pois que Macau, não só pelas suas condições climáticas, mas também como mais remoto padrão da ação portuguesa na Ásia, é o palmo de terra mais próprio para essa evocação se fazer, natural é que, à semelhança do que sucedia com os mais célebres santuários pagãos, situado cada um deles em terra ilustrada por algum episódio da vida da divindade a que era dedicado, seja em Macau o santuário nacional – panlusitano – consagrado ao gênio do poeta, e que a Macau a biografia deste particularmente se refira.
É a Gruta de Camões, com o seu cenário irremediavelmente mesquinho – mas suscetível, apesar disso, de correção em muitos dos seus defeitos –, esse lugar sobre todos prestigioso, dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestigio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguem, há de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior gênio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto, em grande parte, o seu poema imortal, e que o local predileto aos devaneios do seu espírito solitário era essa colina, então erma, sobre o porto interior, junto das penhas com aparência de dólmen em cujo vão foi colocado há anos o seu busto, de proporções reduzidas, fundido em bronze.
(publicado no jornal "A Pátria", Macau, 7 de junho de 1924)
Sunday, February 14, 2010
LÁZARO - LAZARUS
alvo lençol,
tiras de seda,
Eis que se levanta,
a lua,
envolta em névoas.
Caminha, e anda.
Não a passo trôpego,
mas mirando a face
do Mestre.
Como lua desfiando,
que a claridade viu.
Desaparecem respeitos,
escrúpulos,
é a Hora! Não tardes
no (f)rio.
Thursday, January 28, 2010
IF I WERE A TREE .
teria acordado bem aqui,
e, não podendo me mover
até a sala, até a janela,
ficaria, de pés plantados e tranqüilos,
à espera do canto dos pássaros,
do vento (que teria de suportar)
e dos sons da manhã.
Teria, à minha frente,
um único horizonte,
que, forçosamente, seria vários,
pela sucessão dos dias: um universo,
este pedaço de norte,
com personagens variáveis,
rostos diferentes, vazios preenchíveis.
Se eu fosse uma árvore, o sol me aqueceria,
e, na impossibilidade de enjoamento,
sentiria toda a vida, a plenitude,
até que, à madrugada,
adormecesse.
De que adianta ter pés,
se não há a quietude.
Wednesday, January 27, 2010
THE ORDER IS CLEAR .
não me levará,
aos píncaros do conheci-
mento absoluto.
Ao lado uma flauta,
sem saber tocar.
Perdas de tempo.
Enquanto isso, assume a
forma
um garageiro, em caminhão
formado, ladeira abaixo.
Que fazer de nossas vidas,
além de imergir na
Divina solidão, onde se
armam tendas. E toca-se a corneta.
E os soldados assomam. Vento.
o Bem a ser conquistado.
De ninguém perseguido,
de ninguém amado,
ou conhecido.
Artimanhas de aranha
de fios de ouro.
Escapamento dos sons.
Xadrezes sobre a mesa.
Polimento d´armas.
Arneses.
O sonho, para ser conquistado,
primeiro, precisa ser sonhado.
Insuflai a bandeira! Altíssono!
Monday, January 25, 2010
AWAKE.
Estamos arremessando um torpedo contra os chifres
de alguém: ou não. Estamos parados,
onde nenhum submarino apareça.
Enquanto as terras tremem,
sinto um ardor mais pesado
em frente ao barril de estanho
dos sonhos.
Sinto um arremesso de vida, enquanto sonham
os parados de velas, os arriz, sedentos de forfela.
Mas, segundo tenho ouvido, dito,
o mundo é sem trelas, por isso, vamos mão à obra:
os Viajantes não páram, sem descanso torpedeiam
em vastos mares, não há espaço, tudo é quântico:
vês a tua caminhada, como é tão rápida; num estante estás em roma,
noutro em amsterdã, noutro, em Mordor, e nas vilas, nas ruas, em pessoas,
em bares: tudo isso, passado um Instante. Apenas, um fotográfico do segundo,
em tua mente, ou na minha. A mente não faz mais que ziguezaear. Não páre, viajante.
O caminho é complexo, sêde lépido. Não pares a cismar
em abisos.
Assim eu canto
o Mstéo.
Acordado, eu vejo
a rima das flores, mas não dejeto
que a mente abrsorva: um peixe é o melhor exemplo,
do que quer que seja a vigilânça, o que acompanha ei preyce.
"Orai e vigiai". Sêde qua o peixe; que não nada para morrer,
mas, viovo, não pára a sua cauda, a debater as águas. onde vive.
.. .. ... .. . ... ... .. .. .. .. ... .. . . ..
Vejo absortos números, de vigas,
uma a uma, sustentando
o mausoléu das vinhas.
Quem saberá comer as uvas, decididas
a serem melões em cachos, belas fazendas
de gado leiteiro, leite de folhas, e a curtição
de almoço, que delícia, deitar à relva,
sem pudor de molhar a camisa. coim pudor de fazê-lo,
a sobra da manguinha, pêlo de carneiro,
sem outra roupagem a meia, sem costura o algodão
das nuvens, deita-se a foz, do Melima,
e desce de condão, a fada Merovina.
São as danças das palavras de corrida,
ganhando as posições na mente, que remoça
de vê-las sem o crvio da professora Senondina.
Assim nadando, assim correndo, semelham
doces vergéis de alfazema, querendo ganhar do vento
o primor de ser a aquarela do sóis. Assim, cordado
e eis que bailado
os senõs da casa, a dcoe batuta do Vaibe, do instante.
o Instante. Insta a todo tempo.
Sono da verdade. A lua calma e clara.
Portões e clareira. Os doces olhos do prédio adormecido.
(Rónc.)
